Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

Publicado em 12/07/2018 11h39
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Motim da Cachaça

A cachaça, com suas variantes de nomes, conforme a região: pinga, aguardente, existe no Brasil há mais de 400 anos. Sua produção nacional beira a 1,5 bilhão de litros por ano, com tendência a crescer. Faz parte da nossa gastronomia, tendo inspirado muita gente escrever sobre ela. Bebida, que pela sua popularidade de preferência deu nome a diversos  motins, além de provocar infindas encrencas domésticas, em razão de seu alto teor alcoólico. Seu exagerado consumo provoca um inusitado ninho tributário, favorecendo acréscimos de arrecadação, engordando os cofres da  coroa portuguesa à República.


A iniciativa de aumento de sua taxação provocou a cruenta resistência no Rio de Janeiro, em 1660, a qual ficou conhecida por Revolta da Cachaça. O historiador bom-despachense Fernando H. de Resende, no seu excelente livro, recém-lançado, “Bom Despacho, 300 Anos”, menciona semelhante movimento na Vila Nova do Infante das Minas de Pitangui, antigo “império”, por causa da extensão territorial; torrão natal de Gustavo Capanema, que se destacou na Revolução de 1930, porém deixou o triste legado de apoio ao golpe de 1964. O autor revela que nessa área eram facilmente encontradiças bolotas de ouro, que nem batatas, entre encostas de um arroio e do hoje morro Batatal, cuja toponímia delas deriva.


Não foram poucos os garimpeiros que para aí afluíram. Em 1709 erguiam no local casebres com palhas de coco, cuja população não parava de crescer. O autor identifica, nas suas pesquisas, existência de um episódio, em razão da elevação dos impostos, pela metrópole, de um  quinto do ouro (1715). A aldeia, descontente com a medida, contou com a coragem de Domingos Rodrigues do Parado para encabeçar um movimento rebeldia. A palavra de ordem era: “quem pagar, morre”! Esse, um dos motins verificados em Pitangui, porém sufocado pelo conde de Assumar.


Nesse relato o escritor faz um desabafo, com o qual concordo. De que o Motim da Cachaça não merece preocupação dos historiadores. No Brasil, houve talvez centenas de levantes desse tipo, os quais não tiveram devido registro na nossa historiografia nacional, talvez considerado-os de menor importância. Cito alguns: Motim da Maneta, de Salvador; Guerra dos Mascates, do Recife e Olinda; “Quebra-Quilos” e “Rasga Vales”, ocorridos em circunstâncias parecidas, além do Ronco das Abelhas, todos da Paraíba, somente referidos por estudiosos coloquiais. Há uma completa omissão por parte dos Institutos Históricos brasileiros, que assim se transformam em entidades corporativas. O brasileiro não se sente estimulado conhecer seu passado, justamente por falta de uma política pública  adequada nesse sentido.
Jornalista
  inocnf@gmail.com


 



 


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