Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

Publicado em 28/06/2017 09h47
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Época de quadrilhas

Nordeste caipira está em festa, isto é, em festejos juninos, as quais começaram na metade deste mês. Mas, suas alegrias de comemorarem os três santos: Santo Antonio, dia 13; S. João, 24 e S. Pedro, 29, que se iniciam na véspera de cada um, vão deixando de lado as longínquas tradições para ceder às transformações, exigidas pelas novas tecnologias e mudanças de comportamento político. O costume vem da Europa, de se fazer enormes festas em volta a fogueiras acesas, dançando-se ao seu derredor, não só pelo fator de aquecimento, mas por se acreditar que elas seriam capazes de afugentar os males e em louvor às colheitas. Pode ser, que através de suas labaredas, sempre as mais altas, as pessoas comunicassem com esses santos, embora S. João seja tido como um pregador austero e pouco carismático.


Não basta isso para render-lhes devidas homenagens. As mesas cobertas por canjicas, pamonhas, espigas de milho cozido, lá fora, no terreiro da casa, o milho assado; as danças próprias para a data, as adivinhações, brincadeiras as mais diversas, foguetórios, fogos de artifício de menor potência, como os chumbinhos, buscando os mocotós das donzelas, nos alpendres de casa, ao som de um conjunto legal para um bom forró pé de serra; jovens, adultos, idosos se reuniam em conversas da família, ou para beber e comer, coroam o legítimo espetáculo.  E a quadrilha? Aí é que o fole ronca, em meio aos repetidos “anarriês” e “alavantús” do bom marcador. Nos intervalos, aquela pinga! Todos, com suas vestimentas de roça, mulheres de saias em xadrez e homens, com chapéus de palha furados, brindando o casório matuto, celebrado por padre e juiz improvisados, sob severo  olhar de um delegado.


Desencorajado, pois nada a colher, ainda assim o nordestino não esquece as datas. Em outras regiões do País, a santa trindade é, também, divinizada, com igual devoção. Louvem-se os esforços, de segmentos sociais e de algumas prefeituras ao procurarem manter características originais dessa cultura popular, evitando o som metálico e o sentido meramente turístico, com implicações de lucro. A longa estiagem e os maus exemplos nacionais, veiculados pela mídia, algo que se ignorava nos pés de serra, ontem, são efeitos desta época.  A quadrilha, que nasceu dos salões palacianos de França, onde alcançou seu apogeu, caiu no gosto do povo brasileiro, mas a palavra, badalada ano inteiro, já significa o remelexo de propinas e vantagens ilícitas, voltando como que às origens regenciais e sedes de corte, pondo mais lenha na fogueira da democracia, sem sanfoneiro presente. Depois, o noivo foge, deixando seus padrinhos e brasileiros sobre cinzas. 
  

Jornalista
inocnf@gmail.com

 


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