Renato Caldas

Renato Caldas

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Publicado em 22/01/2014 12h43
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Para o alto

     A mariposa já foi usada como símbolo da dimensão mística da pessoa ao tempo de Santa Teresa d’Ávila; expressa o desejo do ser um com Deus. Este tornar-se um passa pelo domínio sobre o próprio eu. O desejo sagrado de que fala Goethe é, em última análise, o desejo por Deus. Goethe gosta de falar de “para o alto”.
O ser humano levanta seus olhos para o alto, para o céu de onde vem auxílio.


Num dos seus colóquios, Goethe explica este modo de ver o desejo como sendo essencial ao ser humano:


                              O ser humano, por mais que se veja atraído pelos milhares de fenômenos, levanta sempre o olhar esperançoso para o céu que se abre sobre ele em espaços incomensuráveis, porque sente clara e profundamente em si que é um cidadão daquele reino espiritual, diante do qual não podemos recuar nem perder a fé.


     Goethe leva a sério o aprisionamento terreno do ser humano. Mas vê ao mesmo tempo o ser humano munido de um desejo infindo que o leva a erguer desejosamente seu olhar para o céu. O ser humano não é apenas habitante desta terra, mas também do reino do além. E só quando se percebe em si esses dois lados, consegue ser perfeitamente pessoa humana.


     Goethe, de acordo com Anselm Grun, vê esses dois polos sempre juntos. Precisaríamos hoje de uma visão que abrangesse toda a figura humana.
     Pois só quando olhamos para o todo humano, para sua terrenidade e sua transcendência deste mundo, faremos justiça a ele.
     No seu artigo “Jesus Luz”, o escritor Carlos Romero, escreve ainda a respeito de Goethe: Que brilhem as estrelas, que brilhe o sol, que brilhe o sorriso, que é uma espécie de luz no rosto. “Luz, mais luz” – pediu Goethe ao morrer.


     O paradoxo de nossa vida consiste em que as raízes que lançamos neste mundo nos levam para além dele. Assim como a árvore enterra suas raízes bem fundo na terra para estender sua copa sempre mais alto para o céu, também nós criamos  raízes profundas na vida para crescer ao encontro do além,do divino.


     Somos caminheiros que, ao andar, sempre mudam. Não podemos ficar parados. Estar a caminho, esta é uma das imagens primitivas da vida humana. Ainda que moremos sempre no mesmo lugar, vivamos sempre na mesma família, trabalhemos na mesma empresa, precisamos ter um coração de caminhante para continuarmos a ser pessoas.
     Somos aves de arribação. Nosso ninho é apenas um ninho por certo tempo. Estamos a caminho de outra terra.


     Peregrinos – essa é a nossa verdadeira condição humana. Nisto reside perplexidade e frustração, esperança e desalento, e acomodação— sentimentos contraditórios que fazem parte da natureza desses seres transitórios que fazem planos para o futuro. Pensamo-nos eternos!


     Como peregrinos, afirma Pr. Estevam no seu livro ‘’Quando Vem a Brisa”, descobrimos que a vida não nos pertence. Somos propriedades de Deus.
   

  Peregrinando nos desertos da vida, aprendemos outra lição, segundo o autor:


Nossa caminhada terrena é muito passageira. É como uma neblina que de manhã aparece e logo se vai. Ninguém vive aqui para sempre. Resta-nos pouco tempo para amar, servir ao próximo, solidarizar-nos com a dor dos outros, praticar o bem, glorificar a Deus.


     O poeta irlandês John O’Donohue disse uma frase impressionante sobre a força transcendente de nossa alma: “A coisa mais bela que possuímos é nosso desejo; esta força interior da alma é de natureza espiritual e possui uma profundidade e sabedoria grandiosas’’.   Para O’Donohue,  é o desejo que santifica a  pessoa e que lhe dá sua dignidade.Ele a santifica, isto é, ele a liberta do terror deste  mundo.


     Quem quiser seguir a Jesus deve conscientizar-se de que não tem morada fixa por aqui nesta terra, não tem toca nem ninho onde possa refugiar-se para sempre. Está a caminho até que encontre sua casa eterna.


     Somos aves de arribação, mas não filhotes no ninho, aves de arribação que “estão saudosas de outras terras”, para estas dirigem seu olhar e para lá voam.
    

Conhecemos a célebre frase de Santo Agostinho: “Inquieto está o nosso coração até que repouse em ti, ó Senhor”.
    

No seu livro “Seja Fiel aos Seus Sonhos”, Anselm Grun, afirma que a morte não é o limite de nossa esperança. Não é o muro que retém o nosso desejo. Ao contrário: a mensagem central de nossa fé é esta: não há morte em que já não haja o começo de nova vida. Não há cruz á qual não siga a ressurreição. Não há escuridão em que já não fulgure a luz da Páscoa, nenhum sofrimento em que somos deixados sós.


     O desejo de encontrar Deus e experimentar sua proximidade levou o Santo Anselmo a escrever uma das suas mais belas orações, que é esta: “Senhor, ensina-me a procurar-te e mostra-te a quem te procura, pois não posso procurar-te, se tu não me ensinas como fazê-lo, e não posso encontrar-te se não te mostras a mim. Ansiosamente quero procurar-te e na procura aumentar o meu desejo; amorosamente quero encontrar-te e, ao encontrar-te, amar-te cada vez mais’’.


Lins.rc@hotmail.com

         
    
    
    
    
    

            
                                          
                     


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