Espaço do Cidadão

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Publicado em 12/02/2014 16h52
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“O povo está menos exigente. Antes, exigiam-se pão e circo. Agora, o circo basta”

Por Eduardo Varandas*

Tem impressionado a alguns paraibanos a quantidade e qualidade de shows patrocinados pelo Município de João Pessoa desde o final do ano passado.

Os festivais começaram com um grande evento internacional de música clássica, relembrando os bons tempos do Governador Tarcísio de Miranda Burity. Os concertos e recitais especificamente, a meu ver, abriram uma janela para melhores horizontes na formação cultural do nosso povo.

Após isso, desencadearam-se sucessivamente inúmeros espetáculos: os festejos natalinos (com neve cênica), o “révelleion” na Praia de Tambaú, com a participação de Sambô e Natiruts.

Durante todo o mês de janeiro, descortinaram-se inúmeros shows com cantores locais e nacionais oferecidos gratuitamente à população, todavia à custa do erário. Com efeito, desfilaram nos palcos do “Extremo Cultural”, dentre outros, astros do quilate de Vanessa da Mata, Frejat, Jota Quest e Titãs.

No final de fevereiro, teremos a festa de Momo, possivelmente com o folia de rua mais vitaminado. Há rumores da presença de mais estrelas nacionais, pagas a peso de ouro.

Tais fatos levaram o Promotor de Justiça Marinho Mendes, conhecido no Estado pela sua dedicação à defesa dos direitos humanos, a clamar “piedade” ao alcaide no sentido de fazer cessar a sucessão de festas na cidade.

Segundo o Promotor, em início de mandato, gastou-se mais de um milhão de reais com bandas musicais, enquanto falta aplicação de recursos em políticas públicas que beneficiem a população carente.

Sempre fui a favor da manifestação cultural como elemento endógeno a uma sociedade saudável, consciente e evoluída. A música é uma das mais sublimes expressões da arte humana e deve ser, dentro da razoabilidade, bem patrocinada pelo Poder Público. Tal raciocínio, por óbvio, também se aplica a todas as formas de manifestações artísticas como a pintura, a literatura, o cinema etc.

Entrementes, no caso da municipalidade local, creio que o Promotor está coberto de razão.

A Paraíba é um Estado pobre e cheio de mazelas sociais. Esse foço social generalizado acarreta evidente movimento migratório de pessoas do interior para o litoral, potencializando os problemas sociais que afogam João Pessoa.

Qualquer indivíduo que se dispuser a ser prefeito da capital acabará com uma responsabilidade redobrada, posto que deverá prestar assistência social não só aos pessoenses natos, mas também a uma enormidade de gente socialmente vulnerável que foge de cidades menores e mais precárias para viverem ou trabalharem cá.

Problemas sociais pululam as nossas vistas: crianças e adolescentes sexualmente explorados, trabalho informal e indigno, drogas, fome, para não falar na ainda ineficiente estrutura da administração pública municipal no que se refere à educação, à saúde e à própria assistência social.

Diante de um contexto deveras preocupante, calha-nos uma pergunta: Como gastar quantias exorbitantes em espetáculos que nos lembram dos shows pagos dos festivais de verão do Hyde Park, quando a nossa realidade, em muitos pontos, assemelha-se às mais frágeis cidades africanas?

A dignidade humana há de pairar sobranceiramente acima de qualquer elemento dentro da gestão pública, como meta de inquestionável prioridade. Assim, as escolas precisam ser recuperadas, com professores bem remunerados e em constante reciclagem. A saúde pública deverá estar sempre abastecida de profissionais adequados com ambiente de trabalho decente onde a aparelhagem e os medicamentes estejam sempre à suficiência da demanda.

Para além da assistência social, saúde e educação, o cuidado com o urbanismo também não deve ser negligenciado. Há praças que precisam de restauração. Existem ruas que sequer estão calçadas, sem olvidar a imundície das favelas, onde pernoitam seres humanos em condições animalescas.

Claro que não se pode exigir de um prefeito há apenas um ano na administração a resolução de males que perduram anos. Há de se questionar, contudo, a lentidão em algumas obras importantes para a cidade e cobrar cuidados especiais com os setores essenciais.

Com tanto dinheiro investido em “shows”, somente o Rei Midas conseguiria recursos orçamentários para as reais necessidades do nosso povo. Como diz um programa dominical da TV: estamos de olho!

Fonte: *Procurador do Trabalho na Paraíba

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