Des. José Di Lorenzo Serpa

Des. José Di Lorenzo Serpa

> ARTIGO

Publicado em 18/03/2014 14h19
  • Tamanho da letra
  • A-
  • A+

A neta, o avô e a palavra

Sabemos todos que a palavra define um texto, seja em prosa ou em verso. O significado, o sinônimo, implica na essência do dizer, o seu verdadeiro conteúdo.

   Tanto é verdade que contistas ou cronistas não dispensam o dicionário, o tradicional Aurélio, dirimindo as suas dúvidas, inclusive de grafia, pois a simples troca de um s por um z, ou vice-versa, desmerece o nível do texto.         

   A palavra bem posta conquista o seu lugar e, por via dela, os grandes oradores firmaram seus espaços, tanto é assim que, na Grécia antiga, Demóstenes usava seixos para corrigir a sua pronúncia, e aqui me refiro à palavra falada.     

   Outras pessoas se divertem com palavras cruzadas, aí adquirindo um bom vocabulário. Digo isso porque minha neta Amanda, de lápis na mão, está à procura do masculino de baleia sem ter encontrado a resposta até agora.

   Não podemos esquecer da palavra usada via parábola, ensinada pelo Pregador da Galiléia, constituindo-se na nova mensagem entre os homens de boa-fé.

   Conta-se ainda que alguns escritores se martirizam no emprego delas, a exemplo do que aconteceu com Gustave Flaubert, ao escrever Madame Bovary.

   É de se lembrar também da palavra cantada ou musicada via bemóis e sustenidos.

   Li certa vez que Drummond brincava, modificava e até criava palavras. Tomo por exemplo a palavra lama e, de imediato, descortino a estiagem, a seca nordestina, no dizer de Luiz Gonzaga: “quando a lama virou pedra”.

   Podemos acrescentar algumas letras e transformá-las noutra palavra, como Lamartine, o grande poeta romântico francês, que, sentado à beira de um lago, escreveu um dos poemas mais belos da língua francesa.

   A verdade é que ela, a palavra, nos impressiona e podemos também inverter algumas letras do vocábulo anteriormente citado, transferindo-se algumas letras da frente para trás e as de trás para frente, e a palavra lama transforma-se em alma, que não deve nos atemorizar por se tratar do início de um grande soneto da língua portuguesa, ao dizer:

“Alma minha gentil que te partiste”.

                   Portanto, palavra puxa palavra, lembrando o seu uso inverso, como fez Leonardo da Vinci nos seus escritos, para evitar o conhecimento público antecipado de suas invenções.

     Assim, usando-se a palavra ao contrário, José ficaria Esoj, o contrário de Roma é amor e o contrário de mim é mim mesmo, que é o contrário de ti.                                

                                        
 
     José Di Lorenzo Serpa
               Desembargador            


tags
Nenhum resultado encontrado.

Comentar

Bookmark and Share