Carlos André Cavalcanti

Carlos André Cavalcanti

> ARTIGO

Publicado em 19/01/2016 12h48
  • Tamanho da letra
  • A-
  • A+

Diversidade religiosa e fascismo pós-moderno: o que fazer?

Três grandes expectativas presidem a luta pela Diversidade Religiosa no Brasil de hoje:

1- A criação de Comitês da Diversidade Religiosa, estaduais e municipais, como preconiza – para os estaduais, ao menos – o Plano Nacional de Direitos Humanos III (PNDH III);


2- O aprimoramento da legislação nacional com a punição e até criminalização dos atos de Intolerância Religiosa, inclusive as agressões simbólicas e cosmogônicas, a depender da gravidade, naturalmente e


3- A efetiva consolidação de uma política pública nacional para a Diversidade Religiosa, incluindo a educação como prioridade, mas também com a definição clara dos usos do espaço público e das instituições públicas.

Nenhuma destas expectativas tem avançado em ritmo consolidado.


E mais: como não se sabe muito bem o que esperar quando se fala em Diversidade Religiosa, as ações acabam variando fortemente em formato e objetivos. Há um certo vazio, uma falta de clareza, por onde tem passado um conjunto de ações que não tem vínculo com os Direitos Humanos, mas que paradoxalmente atuam pretensamente na Diversidade Religiosa. Para separar o joio do trigo, é preciso ter o sentimento e o sentido da H(h)istória!!


Neste nosso “mundo dos homens e da história”, nas coisas hodiernas há aqueles que vão a reboque dos “acontecimentos” da história e há os que se utilizam da História (enquanto ciência, com “h” maiúsculo) para analisar as próprias ações. Tentamos estar sempre no segundo grupo, mesmo sabendo que existem imponderabilidades que a História não alcança e que há as incertezas do hiato irracional do comportamento humano. Mesmo assim, bem pior é deixar-se levar pela maré sem questionar-se e sem buscar um norte. Isso é um absurdo para quem milita em Direitos Humanos na sua vertente da Diversidade Religiosa. Em momentos de crise política como esta que foi implantada no Brasil desde 2013 pela aliança golpista entre a burguesia, setores da classe média e setores da magistratura, os que se portam como “barcos na deriva da maré” podem exercer papéis bem nocivos.


Como era de se esperar, a referida radicalização à direita da política do país chegou ao campo da Diversidade Religiosa (DR). A presença de disfarçados militantes de extrema direita, saudosistas da Ditadura Militar e até da Monarquia (sic), adversários da Liberdade de Expressão Religiosa em pseudomovimentos de Direitos Humanos e até em tradicionais organizações da Sociedade Civil é só um dos fatores deste processo. Muitos dentre estes “confundem honestamente” a militância na DR com os movimentos que pretendem acusar e denegrir as religiões – principalmente as majoritárias – pela sua falta de “racionalidade”, que é cobrada delas no sentido do racionalismo cientificista, vertente redutora da Ilustração Iluminista....


Os radicais mais letais se aproveitam, porém, de outro fator bem mais dramático: o sofrimento das minorias religiosas diante da Intolerância Religiosa, apresentando-se a elas como “velhos aliados”. Vendem a falsa noção de que tudo resolverão com ações judiciais, reduzindo a política a segundo plano e  ultimamente buscam hegemonizar os movimentos de Direitos Humanos & Diversidade Religiosa


Buscam daí a visibilidade para a instrumentalização das casas legislativas em estados religiosamente conservadores para a apresentação de projetos parlamentares de criação de comitês da DR, barrando o modelo de decreto estabelecido nacionalmente com sucesso pelo Governo Federal não por acaso a cargo da Frente Popular e de esquerda.  É que aí, nos legislativos dos estados religiosamente conservadores, as bancadas religiosas agirão muito provavelmente com muita força no sentido de transformarem tais comitês em instituições não de diversidade, mas de UNIcidade religiosa.... Isso não é casual!!!! Casualidade é história!!!! Ainda que cada Estado tenha sua conjuntura específica e possibilidades de negociações igualmente específicas.
Lógico que seria ideal que tivéssemos musculatura política para implantar comitês da DR em todos os municípios e estados via Poder Legislativo. É até desejável, mas fazer de conta que a correlação de forças atual após a relativamente recente ascensão das bancadas religiosas na imensa maioria dos legislativos seria favorável à Diversidade, é ato muito provavelmente venal. É de quem quer a UNIcidade e não a diversidade, mas se traveste de militante dos Direitos Humanos.


Estes mesmos grupos de direita também atacam instituições públicas e privadas tradicionalmente alinhadas com os Direitos Humanos, como as universidades públicas e as comissões de Direitos Humanos. É uma velha bula de um remédio amargo agora adaptado ao combate à Liberdade de Expressão Religiosa.
A atual radicalização da vida política nacional não é caso isolado ou estratégia nova da (extrema) direita. Denunciar corrupção e tentar derrubar governantes de esquerda ou democrático-populares eleitos pelo voto é uma fórmula repetida à exaustão desde que o Totalitarismos de estabeleceu no século XX. Tanto na América Latina quanto alhures. Um exemplo: o golpe que levou Hitler ao poder na Alemanha tinha este perfil.... Não aprofundaremos o tema, porque não é o assunto deste artigo.


Também há uma radicalização à esquerda que busca denegrir a religião pelo aporte de um laicismo estatal, mas estes setores não possuem densidade política hoje. E observe-se que não se deve confundir laicismo com laicidade.


A radicalização política (neo)fascista nos importa aqui pela forte conexão que ganhou com a religião. Nem precisaria lembrar os vínculos religiosos de políticos que se colocam contra a continuidade da ordem democrática....


O fator essencial, porém, é outro. Grupamentos religiosos são mais suscetíveis a investidas conservadoras, pois já possuem, em sua maioria, em seus conjuntos centrais de valores o normativismo disciplinador com o qual trabalham os ativistas de direita. Aliás, esta confluência pode ser usada para se desmascarar falsos militantes, pois um dos caminhos para o desmascaramento é observar a posição deles quando líderes religiosos reacionários, contrários a DR, são postos publicamente em dúvida. Nestes momentos, muitos religiosos de direita infiltrados nos Direitos Humanos saem da toca e defendem seus líderes ultraconservadores....


A suscetibilidade ao “canto de sereia” do fascismo torna as vertentes religiosas mais conservadoras partícipes vetoriais do golpismo em curso no país. É por isso que o Grupo Videlicet da UFPB decidiu criar neste Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de janeiro de 2016, um coletivo permanente, apartidário e democrático, de pessoas e instituições parceir@s que debatam uma Agenda Democrática da Diversidade Religiosa a partir do que já se tem elencado nas experiências ricas que temos tanto a nível local quanto a nível nacional. Além deste ponto de partida, temos também a política de Diversidade Religiosa implementada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República desde 2011 e pelo Comitê Nacional da Diversidade Religiosa.


O Coletivo da Diversidade Religiosa nasce com discurso e práticas construtivos, densos e positivos para (re)tomar o foco e ajustar as ações no sentido da Cultura de Paz e da confluência entre as religiões. Nasce também para amadurecer o processo de efetivação do encaminhamento, com apoio da SDH-PR, das denúncias de Intolerância Religiosa para a sociedade, para a mídia e para a Justiça!


É da Sociedade Civil organizada e dos Movimentos Sociais que deve partir a ação para uma política de Diversidade Religiosa condizente com a democracia popular e com os avanços e conquistas sociais do Brasil em tempos recentes. O novo coletivo busca fazer a nossa parte e influenciar outros para que o façam também. Sem retrocessos e sem camuflagens. À luz do dia!


tags
Nenhum resultado encontrado.

Comentar

Bookmark and Share