Renato Caldas

Renato Caldas

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Publicado em 19/05/2016 09h44
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Nas águas da existência ou nas profundezas da vida

     Em tese,viver é o que todos nós fazemos antes que a morte  chegue.Porém,o significado de   “viver” varia    enormemente de   uma pessoa para outra,a ponto de,segundo a filosofia de Oscar Wilde,reduzir-se ,para algumas,a um mero “existir”.

Se uma pessoa apenas trabalha ,paga as contas e vê os dias passarem ,um após o outro,ela    flutua nas  águas da   existência, mas não mergulha  nas profundezas da vida.

O filósofo Oscar Wilde nos apresenta uma questão muito profunda:VOCÊ EXISTE OU VIVE ?

Para a maioria  de nós,a verdadeira vida é a que não levamos.

O drama de muitas pessoas é esperar que aconteça algo diferente ou especial que lhes permita VIVER,com maiúsculas.No entanto, é justamente essa atitude passiva que impede que a vida desejada chegue.
     Em vez de trancar-se em uma fortaleza ,vendo o tempo passar, olhe ao redor  e deguste os frutos de cada momento da vida.

“Conhece-te a ti mesmo”.Esta frase,atribuída a Sócrates,estava inscrita na entrada do templo de Delfos.Seu objetivo era incitar os visitantes a reconhecer os limites de sua índole.
    

Alguns conselhos para quem quer alcançar o autoconhecimento:

- Explorar seu interior ,onde se encontra tudo aquilo de que   necessitamos  para viver com plenitude.

- Ser honesto consigo  mesmo e com os demais.

- Viver consciente dos próprios atos e de suas consequências.

- Ser coerente com sua natureza, sem tentar parecer o que não é.

A vida não é complicada, nós é que somos.A vida é  simples e o simples é sempre correto.

Os problemas mais complexos costumam ter as  soluções  mais simples.Um dos segredos da felicidade é não permitir que sua mente  dificulte o que é fácil.

Muitas vezes, o medo do fracasso é pior que o próprio fracasso, porque este ao menos nos permite aprender e evoluir.

Paulo Coelho assim reflete sobre o temor de correr riscos:

"A pessoa que tem medo de assumir riscos é digna de piedade.

Talvez nunca se decepcione nem se iluda,talvez não sofra como os que perseguem  um sonho.

Mas,quando olhar para trás,a única coisa que terá na vida serão as batidas do próprio coração.

A vida de cada homem é um caminho em direção a si mesmo,o ensaio   de um caminho,o esboço de um rumo.

Toda existência é uma trilha a ser percorrida por  cada pessoa".

Ninguém, afirma Hemann Hesse, pode fazer  isso por nós, porque o caminho não está marcado no mapa; nós o construímos pouco a pouco, passo a passo, com nossas decisões e ações.

Antônio Machado escreveu estes célebres versos sobre a forma como  a vida se desenrola:

Caminhante,são tuas pegadas

O caminho e nada mais

Caminhante,não há caminho

Senão rastros no mar.

     Á medida que desenhamos  nossa vida,nosso trajeto  vai se apagand0 - devemos deixar o passado para trás -, porque o  essencial é avançar,como um barco que deixa seu rastro  entre as ondas. Se a embarcação  para, o rastro desaparece. Nesse  caso, viveríamos uma existência  sem rumo.

O caminho da vida está cheio de mistérios, luzes e sombras . Não obstante,como dizia Sidarta,o maior mistério é descobrir quem somos nós próprios.

No romance Demian de Hermann Hesse,Lê-se:”Nenhum chegou a ser ele mesmo por completo;entretanto, cada um aspira a sê-lo alguns ás cegas,outros com mais facilidade ,cada um como pode “.

Faz-se a estrada ao andar e vive-se a vida ao vivê-la,não ao contemplá-la.Hesse afirma ,que se nossa experiência se transforma em algo passivo,que outros estabelecem por nós,nunca conheceremos a liberdade de ser quem realmente somos nem os benefícios da peregrinação  ao nosso verdadeiro eu. Não deixaremos nem sequer um  rastro próprio,porque iremos atrás da outra   pessoa  e o rastro dela   será o nosso.

Por isso é necessário traçar nossa rota ,errar,corrigir,sentir  medo e superá-lo.Conheceremos a nós mesmos a cada passo,descobriremos nossos sonhos, nossas motivações. E assim teremos a satisfação  de criar  nossa própria vida.

Peregrinar em direção a si mesmo significa enfrentar sozinho as próprias contradições.Precisamos escutar nossa voz interior, e assim, encontrarmos novamente nosso caminho em meio á névoa.

O importante é não deixar parar o motor,não ficarmos na sarjeta, indecisos, sem saber o que fazer. É preciso enfrentar as situações sem se afundar nelas.

Nos momentos de crise somos capazes de ver possibilidades que antes nos pareciam invisíveis.

Se tomarmos decisões equivocadas para chegar até aqui,afirma Hesse, não podemos apagar o caminho já percorrido, mas sempre  temos tempo de fazer uma curva que nos coloque de volta   na trilha de nossos sonhos.

No livro  Sidarta ,Hermann Hesse  ilustra o que é um rito de passagem, uma maneira  de abandonar a antiga   existência para abraçar uma nova. Depois de conhecer os prazeres mundamos, desesperado por ter se perdido a si mesmo, Sidarta planeja suicidar-se. E é aí que tem uma revelação. De repente se sente novamente  vivo. Descobre que  devia morrer para voltar a nascer, matar o seu antigo eu, sua  antiga  vida, para poder iniciar uma nova – porque  é quando deixamos morrer nossas etapas anteriores que somos capazes de compreendê-las, de olhá-las com outros olhos e obter conhecimentos a partir delas.

Nietzche disse que devemos morrer várias vezes em uma vida. Ao longo de nossa existência, caminhamos, avançamos  e escolhemos, e escolher ´é sempre deixar  algo para trás, desprender-se de alguma parte  de si mesmo.

Em  suma, como ave que quebra  o ovo depois de ter se desenvolvido o suficiente, crescer é transformar-se de dentro para fora.

Pensar é romper. É pensar por si mesmo.

Por isso, é preciso romper a casca, desfazer-se de toda  ideia planejada   para viver a própria vida.

É preciso romper a casca e atrever-se a viver.

Com a transformação do exterior no interior,do mundo no eu, começa  o amanhecer.

O mestre britânico Kulananda, distingue dois estados apontados por  Buda: o samsara e o nirvana.

 

Os conceitos de samsara e nirvana também têm sua tradução no Cotidiano:

 

- O sujeito que vive no samsara é aquele apegado ao material  e ao temporal. Entrariam nesta categoria os consumidores compulsivos, as vítimas da moda e as pessoas preocupadas demais com sua aparência .O samsara  produz sofrimento, já que  o indivíduo se apega a coisas e pessoas  que não resistem ao passar do tempo.

- Pertence ao nirvana toda forma de vida que nos liberta dos vicios: cultivar  a mente e o espírito, conectar-se com a natureza, escutar os outros, ler, praticar a generosidade, meditar, experimentar o silêncio.O nirvana é a libertação de tudo que é superfluo.

 

No seu livro Do Universo Á Jaboticaba,Rubem Alves, com relação ás mudanças que precisamos realizar em nós mesmos, afirma: "Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”.

A alma é uma cigarra.Há na vida um momento em que uma voz nos diz que chegou a hora de uma grande metamorfose;é  preciso abandonar o que sempre fomos para nos tornarmos outra coisa:

“Cigarra! Morre e transforma-te! Sai da escuridão da terra.Voa pelo espaço vazio !”.

“ A cobra que não consegue livrar-se de sua casca morre; O mesmo acontece com os espíritos que são impedidos de mudar as suas opiniões; eles deixam de ser espírito”. (Nietzsche).

Franz Kafka utilizava a imagem de uma piscina para falar sobre a verdade. Aqueles que buscam a verdade devem abandonar a  superfície  da experiência cotidiana para submergir nas profundezas.

Após este mergulho,”rindo e lutando  por ar, voltamos á  tona, à então duplamente iluminada superfície das coisas”.

Desta reflexão  segundo Kafka, deduzimos que a verdade é algo difícil de extrair, mas que ilumina os que vão em seu encalço até as profundezas do abismo.

O que podemos encontrar se mergulharmos na verdade?

- Sonhos e motivações  que enterramos sob o peso  das obrigações  e da rotina.

- Prioridades  que não estamos atendendo porque as urgências consomem   todo o nosso tempo e todas as nossas energias.

- Um espelho do que somos e do que estamos fazendo.

Para mergulharmos na piscina da verdade, podemos praticar meditação ou simplesmente arranjar tempo para em silêncio, prestar atenção ao que está  acontecendo em nossa vida.

A existência é uma viagem de uma única direção:para a frente.

Não podemos retornar ao passado,quando muito podemos evocá-lo com a mente para entender os caminhos que  tomamos. O que fizemos corretamente fica com nossa herança. E aquilo que fizemos de errado já não pode ser desfeito. A poeira do tempo irá cobri-lo até apagar seu rastro.

Cada pessoa, segundo afirma Anselm Grun, em algum momento da vida se encontra num caminho que não leva adiante; um caminho que é um beco sem saída que termina em frente de um  muro, em desvios que parecem ser infindáveis, em caminhos errantes que levam  á direção errada, em atalhos que se perdem no mato.

Em algum ponto de nossos caminhos errantes, desejamos “ascender”, levantar e seguir nosso caminho verdadeiro.

Consideramos todas as pessoas que apontam nosso caminho como anjos.Muitas vezes, nós as vemos como anjos da ressureição que  nos dão nova confiança para nos levantarmos da resignação e vivermos uma vida nova.

O caminho é uma metáfora bem conhecida para a nossa vida.

Desse modo, segundo Anselm Grun, sonhamos muitas vezes que estamos andando por caminhos desconhecidos, ou conhecidos que, de repente, desaparecem. Andamos errantes,desesperados, procurando algum destino, uma cidade, uma casa. Ou ficamos paralisados, incapazes de dar um só passo. Todas essas imagens se relacionam com a situação atual de vida no caminho de  vida.

Seria importante fazermos um exame de consciência e perguntarmos a Deus o que ele nos quer dizer, por meio dessas  imagens,sobre nosso estado real, atual, e quais os passos que deveríamos  dar.

Quem se põe a caminho quer saber  o sentido de sua vida. Ao caminhar, procura o motivo e o destino de sua caminhada . Em última análise ,o destino de nossa caminhada nunca se  encontra dentro desse mundo ;caminhamos sempre rumo a um aconchego último, rumo a um lar em que possamos assentar definitivamente.

No seu livro "Não Esqueça o Melhor", Anselm  Grum afirma que neste mundo, não há um repouso definitivo. A morte mostra ao ser humano que, em  última análise, ele é um forasteiro que  procura pelo eterno lar em que possa se assentar definitivamente.E o ser humano sente que precisa continuar  em seu caminho, que não pode ficar parado sem cair em desunião consigo mesmo.Se quiser permanecer fiel a si mesmo,precisa caminhar .Em sua vida,o ser humano não está  em casa; está a caminho de sua casa.

Muitas vezes escolhemos caminhos espirituais pelos quais gostaríamos de experimentar a transformação interior. Mas nesta escolha  ficamos frequentemente presos em nosso ego.É o nosso caminho, a nossa concepção de espiritualidade que nós seguimos.

A vida nos transforma quando nos colocamos á disposição dela.

Olhe para dentro de sua vida e   pergunte:O que foi que mais me transformou ? Foram os caminhos que eu mesmo procurei ? Ou  foram acontecimentos que vieram de encontro aos meus planos, que me deitaram sobre a grelha em brasa, quando tive a sensação de não  mais poder  viver?  afirma Anselm Grum  em O Livro Da Arte de Viver.

Você não precisa ir em busca daquilo que o transforma. Deixe acontecer  a transformação que a vida impõe a você.

 

Lins.rc@hotmail.com
    

 

    
    
    
    


    
    
    

    
    


    
    


    
    
 


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