Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

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Publicado em 20/08/2016 20h46
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Cartas da História

Na expedição de Pedro Álvares Cabral se encontravam experimentados navegantes portugueses, mas também um cronista por excelência, Pero Vaz de Caminha. Foi ele quem em carta a D. Manuel I narrou todos os pormenores da chegada da esquadra, os primeiros contatos com os nativos indígenas, informando-lhe da fertilidade do nosso solo.
  A epístola era o fluente recurso de comunicação entre os povos. No Brasil, seu uso foi bastante disseminado por Pedro I, pondo seu pai, D. João VI, quando já havia retornado a Portugal, a par dos últimos acontecimentos políticos.  A carta, hoje, comumente tem seu emprego restrito à definição de um programa de princípios filosófico, econômico, social. Por outro lado, já se torna praxe emiti-la, na forma de denúncia à nação, por Chefes de Governo e de Estado, quando impelidos se apearem do poder, por razões de força, proveniente de grupos descontentes, patrocinadores de rompimentos do sistema democrático.


Nessas circunstâncias, após de fracassado “impeachment” e incidentes, culminando com a morte de um major da Aeronáutica,  recrudescem as acusações udenistas contra Getúlio Vargas,  personificadas por Carlos Lacerda, que considera seu governo  “um mar de lama”. Um senador paraibano detona: “É preciso matar esse governo para que sobreviva a nação”! Sem apoio, inclusive militar, ele opta pelo suicídio, cujo desfecho se deu na manhã de 24.08.1954. Deixa-nos, contudo, a “Carta Testamento”, onde declara os motivos reais daquele triste episódio da história. Em resumo diz: “Precisam sufocar minha voz e impedir minha ação (...) na defesa dos humildes”; denuncia a “campanha subterrânea de grupos internacionais e nacionais contra o regime de trabalho e de obstarem geração de riquezas, através da Petrobrás”. Assim conclui: “Se as aves de rapina querem o sangue, continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida”!


Janio Quadros, outra vítima do udenismo inconformado com sua política externa independente, desabafa em carta, na renúncia à Presidência da República, a 25.08.1961. Parecida, em alguns trechos, a linguagem de ambos: “Desejei um Brasil para os brasileiros”.  Alude, adiante, “aos apetites e ambições de grupos ou indivíduos, inclusive do exterior”. Encerra numa exortação ao povo, estudantes e operários, sem deixar de se referir à justiça social.


Em relação aos pontos levantados pelos seus antecessores, Dilma Rousseff, que também caiu na malha de uma oposição, replicante de direita e ganguesterizada como a atual, segundo imprensa norte-americana, preferiu adotar um tom mais suave, na carta que acaba de endereçar ao Senado e aos brasileiros. Diga-se de passagem, seguindo a nova tradição e sem sair de agosto, que tem sido mês mais tirânico entre nós.  Poupou, pelo menos por enquanto, críticas contundentes às raízes maiores do seu impedimento, o progressivo afastamento à hegemonia estadunidense e críticas à cobiça internacional ao Pré-sal. Nesses atos, nunca a palavra golpe havia adjetivado uma situação de anormalidade democrática, como experimentada por Vargas e Janio Quadros. Empregou-a com bastante precisão.  Deixa, na sua mensagem, uma janela aberta para reconciliação, ao sugerir plebiscito, entregando ao povo a decisão quanto aos destinos do país. Todavia, não o suficiente para demover quem, há tempos, se preparou para dar um golpe certeiro na democracia. Escreveu como Vaz de Caminha ingenuamente anunciou, “aqui, em se plantando tudo dá”, inclusive ditadura.

Jornalista
inocnf@gmail.com


 


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