Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

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Publicado em 19/10/2016 10h47
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Canalhas, canalhas

Foi bem-vinda no Brasil a Revolução do Porto, de 1820, de cujo programa se inseria a Assembleia Constituinte. Obrigava-se ao juramento antecipado à Constituição, contudo D. Pedro avisou: “jurá-la, à ponta de baioneta, é algo intolerável”. Houve eleições, para composição das Cortes de Lisboa. Brasil elegeu 69 representantes e para lá seguiram mais da metade. Os deputados brasileiros iriam enfrentar o fogo cruzado de seus colegas lusos, os quais já haviam fixado o ano de 1822 para o Brasil reduzir-se à Colônia.


D. João VI, um “mandalete” nas mãos dos ingleses, enquanto nos debates prevalecia a teoria segregacionista de nossas províncias,  “verdadeira política de marcha à ré”, comenta o historiador Brasil Bandecchi.   Defendê-lo significava ofender a Portugal. As galerias eram orientadas promover barulho e quando um parlamentar nosso subia à tribuna era crivado de apartes e de intenso vozerio. Num desses episódios, em incontida reação, o deputado paulista Antonio Carlos soltou essa famosa expressão: “Silêncio, quando um brasileiro fala, cala-se a canalha”!


A conduta parece se repetir no nosso Congresso Nacional em várias ocasiões de efervescência política.  Tancredo Neves, em 2 de abril de 1964, bradou canalha à atitude do senador Auro de Moura Andrade por haver proclamada a vacância da presidência da República, apesar do presidente João Goulart encontrar-se no Rio Grande do Sul. Na sessão de impedimento de Dilma Rousseff, semelhante tratamento é dispensado pelo senador Roberto Requião, visivelmente dirigido ao neto de Tancredo, Aécio Neves, o qual não tem a mesma postura democrática de seu avô.  Disse ele no início de seu memorável discurso: “Não pretendo, nesta sessão, moderar a linguagem, ou asfixiar o que penso. Não vou reprimir a indignação que me consome. Canalha! Canalha! Canalha!”


Naquele dia fatídico de 31 de agosto, a contundência verbal se estende ao senador Lindbergh Farias: “Assumo essa tribuna tomado de indignação, porque isso aqui é uma farsa”. Mais adiante, acentua: “Os senadores, que cometeram este crime, vão para a lata de lixo da história”. Tal como seu antecessor, rememorando idênticas palavras proferidas por Tancredo Neves, foi enfático ao pronunciar, por seguidas três vezes, “Canalhas!” (no plural). 


São passagens que guardam semelhanças da história nacional. Éramos minoria no parlamento do além-mar, contudo destemida e coesa pelos ideais da Independência. Um de seus combativos membros, jornalista Cypriano Baratta, da Bahia, não suportando tantos desaforos atracou-se com um dos desafetos, rolando de escadaria abaixo. Sete de nossos representantes tiveram de fugir de Lisboa, por falta de absoluta segurança, rumando à Londres e posteriormente retornando ao nosso país. A causa foi parcialmente vitoriosa, pois o detalhe da sua soberania ainda está em jogo. Defendê-la é sempre uma ofensa aos interesses imperialistas, que entre nós encontram muitos adeptos, encastelados no poder.  O Senado, portanto, durante o período no qual se debateu a cassação de mandato da nossa primeira mandatária, fez o papel de agenciador, como o de espelhar-se nas Cortes Portuguesas, com direito a um D. João, apesar de esquelético e mandarim. 
Jornalista
inocnf@gmail.com


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