Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

> ARTIGO

Publicado em 24/01/2018 14h47
  • Tamanho da letra
  • A-
  • A+

DOM PELÉ

Alberto  Patroni, jornalista e revolucionário, mais paraense que nascido em Portugal, em razão de suas agitações políticas foi convocado para prestar esclarecimentos às Cortes de Lisboa. Recebido, em audiência, por D. João VI, disse-lhe duras verdades: “Falamos claramente, Senhor,  todos querem obedecer à lei e não ao capricho, e serem bem governados. Se um ministério se lhes apresenta um governo tirano, os povos se desesperam e sacodem o jugo.  Os povos não são bestas, que sofrem em silêncio, e se há consistência na tirania, o Brasil em pouco proclamará sua Independência”!


Vaticinadoras palavras. Parece-nos havê-las lido, Dom José Maria Pires, no período em que administrou a Arquidiocese da Paraíba, de março de 1966 a dezembro de 1994. Intransigente seguidor à doutrina social da Igreja, teve vários entreveros com os generais. Provavelmente seus conterrâneos, distrito de  Nª Sª Aparecida de Córregos,  município de Córrego do Bom Jesus, ao sul de Minas Gerais, não acompanharam sua participação eclesial em favor dos pobres e dos perseguidos pelo regime, especialmente os estudantes. O historiador paraibano, José Octávio, reproduz muito bem um encontro que teve com Médici. Inicialmente, lhe é apresentado pelo dep. Federal Ernane Sátiro: “presidente, esse aqui é o nosso arcebispo, algo de esquerda, mas com quem me entendo muito bem”.


- Médici: “Hoje, filho não obedece aos pais; aluno, a professor; padres e bispos ao Papa”.

Dom José replica-lhe: “Exa., naturais divergências são resolvidas no interior da Igreja”!

- Médici, meio bossal, exclama: “Vocês, religiosos, não podem casar, por isso não gostam de mulher, e nem de outros homens”.

Dom José: “Se nossa conversa chegou a esse ponto, peço licença para me retirar”. Saiu, acompanhado do ministro José Américo de Almeida.

O episódio ficou bastante tempo abafado. Um outro, acontece com o pres. da Assembleia Legislativa, assim que aportou à Paraíba, ao lhe ser outorgado o título de “Cidadão Paraibano”. Condicionaram a entrega da comenda à entrega prévia do discurso que o homenageado faria. Este, não só negou como, mais tarde, se recusou recebê-lo, ao afirmar que não estava nele interessado.


Há uma terceira discordância, dentre outras, com as autoridades militares locais. Aceitou celebrar missa, na Catedral, por ocasião de mais um aniversário do golpe de 1964, para eles, revolução. Como Patroni, não tinha papa na língua. Na homilia fez duras críticas aos erros cometidos pelo regime. Diante do Comandante do 1º Grupamento de Engenharia, ratificou o que pronunciara, de que o combate ao comunismo não deveria se dar pela via da repressão.

Faleceu aos 98 anos de idade, em agosto de 2017, na capital de seu estado, onde, aposentado, residia. Porém, o Bom Pastor se acha sepultado na Basílica de Nª Sª das Neves, em João Pessoa.

 


tags
Nenhum resultado encontrado.

Comentar

Bookmark and Share