Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

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Publicado em 01/03/2018 15h04
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De corvo a vampiro

A fim de transformar a cidade maravilhosa num polo turístico, dando-lhe aspecto de limpeza, Carlos Lacerda, quando governador da Guanabara, promoveu verdadeira caçada aos mendigos, removendo-os das principais artérias.  Usava o Tribuna da Imprensa, de sua propriedade, para atacar o nacionalismo getulista, pregando sua substituição pela fórmula imperialista. Foram tantos os insultos e ações policialescas que fez gerar uma imprensa crítica desses atos. O jornal A Noite, do qual Nestor Moreira era repórter, não parava de denunciá-lo e o comportamento atrabiliário de seus policiais.


O episódio da madrugada de 11.05.1954, bem retrata essa realidade.  “Coice de Mula”, da Delegacia de Copacabana, “um chacal de farda” –  disse a revista O Cruzeiro, referindo-se à prisão, por ele, do jornalista, nele  desferindo seguidos socos, ocasionando  sua morte, num hospital. Tal algoz mereceu mais esse apelido, atribuído por David Nasser: “chimpanzé assassino”. O sepultamento de Nestor foi acompanhado por colegas seus, advogados, donas de casa. Alguns sádicos e masoquistas estiveram no cemitério de S. João Batista,

unicamente para conferir a maldade aplicada naquele corpo franzino, que praticava o jornalismo por profissão e amor ao povo.  Não faltou, também, a presença exótica e hipócrita do diretor de Tribuna da Imprensa, completamente de preto, dos pés à cabeça, ensejando mal estar no jorn. adversário, Samuel Wainer, do Última Hora, que imediatamente se retirou.  No dia seguinte o jornal de oposição trazia a charge de um corvo. Bem se sabe que se trata de uma ave de rapina, possuidora de uma penugem negra, perfeitamente associável ao estilo político do brasileiro Carlos Lacerda, “O Corvo da rua do Lavradio”.


Não faltou inspiração ao prof. Leonardo Moraes ao figurar um vampiro, a ele atrelando-se uma faixa presidencial, aludindo aos desmandos do governo Temer, de desmonte da Nação.  O morcego vampiro, animal noctívago, para uns maligno por sulcar o sangue de seres vivos, abunda em áreas, de preferência escuras, não só do Brasil como de países vizinhos.  A ele se alinham sentimentos de fantasmas e lendas do medo. Cotejando a vida pública de ambas personalidades, e descobrirão convergências de atitude, merecedoras, portanto, de tais representações animalescas. Foi feliz a alegoria do bloco Paraíso de Tuiuti, que arrancou aplausos de todo o sambódromo carioca.


A intervenção militar no Rio de Janeiro não apagará a cena e nem reverterá a baixíssima popularidade do presidente golpista. Lacerda e Temer trazem essa simbiose, de caudatários dos interesses norte-americanos, inclusive no Continente.

inocnf@gmail.com


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