J.G Fernandes

J.G Fernandes

José Geraldo Fernandes Neto é natural de Pilões, localizado a 117 quilômetros de João Pessoa/PB. Escreve desde 2013 textos que variam entre críticas sociais, poesias, motivação, política, entre outros. Formado no Curso de Letras da UEPB, escreveu o o prefácio do livro de crônicas Relicário, da autora Aninha Ferreira. Também escreve textos por encomenda para prefácios de dissertações e outros trabalhos acadêmicos. “Escrever é a arte que mais me satisfaz“

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Publicado em 30/04/2018 09h43
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Nós brasileiros somos quase todos cínicos

"Deus nos livre, ou graças a Deus"

Na antiguidade, o cinismo foi uma escola filosófica, oriunda de uma linha de seguidores de Sócrates, em que seus adeptos preconizavam a afronta às conveniências e convenções sociais e morais da época. Para eles, a melhor forma de viverem era simplesmente ignorarem. Em outras palavras, fingiam que não tinham nada a ver com o que estava acontecendo.


Na atualidade, o brasileiro talvez esteja vivendo um neocinismo.  Não são poucas as demonstrações de contravenção às leis, à moral e aos bons costumes.


Obviamente, toda sociedade sempre possuiu membros que desobedeceram ou até desdenharam de suas convenções, entretanto, poucas vezes vimos tanta gente alheia à realidade, infringindo regras e, pior ainda, achando cada dia mais normal.


Somos cínicos quando achamos normal a filmagem desautorizada de um corpo dilacerado no acidente automobilístico e, ainda por cima, publicado instantaneamente em qualquer rede social de um estranho.


Tornamos-nos contraventores quando dizemos acreditar em algum deus, congregados ou não em alguma denominação religiosa, porém, sobrepomos a nossa opinião e os nossos conceitos à Bíblia, ao Alcorão, ao Torá ou a qualquer livro doutrinário, para encaixarmos o deus na nossa limitação ou, pior ainda, justificarmos os nossos erros com interpretações errôneas desses livros.


Quem de nós nunca quis ou julgou conforme seu ‘inventário de leis internalizadas’ o traficante da favela, o assassino brutal, o político corrupto, o policial desonesto, o padre pedófilo, o pastor extorsivo, o motorista bêbado, o homofóbico da venda da esquina, a abortista, o torturador ou qualquer outro tipo de ‘criminoso explícito’?


Não sei se a explicação está na dimensão continental, na miscigenação do povo, na origem cultural, no tipo de colonização, nas condições climáticas, na hereditariedade, na prevalência religiosa, em todas as alternativas juntas ou eu nenhuma delas. O fato é que coisas de menor relevância nos chamam tanta atenção que nos fazem ignorar o que realmente importa.


O Brasil não é apenas pão e circo, mas julguemos a expertise do brasileiro quando trata de temas como BBB, Copa do Mundo, o vilão da novela das nove, o novo batidão do Kondizilla, a parceria que o Safadão está fazendo com a Anita (... e não me achem um chato, pois também acompanho alguns). Pensemos agora na ignorância da maioria de nós quando o assunto gira em torno coisas vitais como a constituição, reformas previdenciária, trabalhista, política, alterações na grade de ensino, etc.


A verdade é que fingimos que o que está acontecendo não tem nada a ver conosco nem vai influenciar no nosso futuro. Somos como o homem que está dentro do avião, que recebe a notícia que ele está caindo e, em vez de se desesperar, pensa no prejuízo do dono da empresa de aviação.


Nós não nos adaptamos à situação, resolvemos ignorar e usar alguns entretenimentos como anestesia para não sentirmos a dor da realidade. Talvez o Brasil esteja vivendo aquela clássica cena do filme Titanic em que os músicos, cientes da gravidade do desastre e da sua eminente morte, resolvem continuar tocando, como se nada estivesse acontecendo, pois nada do que fizessem impediria o ‘destino de morrer’ de acontecer.

 


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