Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

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Publicado em 19/06/2018 11h24
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O poder da vírgula

                                            
Nos últimos dias, o ilegítimo pres. Temer sofreu dois grandes abalos. O segundo, que ainda persiste, vem das greves dos caminhoneiros e petroleiros, até agora culminando com a queda de Pedro Parente, porém nada a mudar na Petrobrás. O primeiro, uma simples vírgula ia ocasionando estragos ao seu governo. Na ânsia de enganar a população determinou sua assessoria redigisse um convite alusivo ao 2º ano de sua usurpação no cargo. E o marqueteiro assim o fez: “O Brasil voltou, 20 anos em 2”, expressão ideal encontrada.


Como no Brasil nada se cria, tudo se copia, a intenção era pegar carona do famoso lema de Juscelino Kubitschek: “50 Anos em cinco”, inteligentemente cunhado pelo poeta carioca Augusto F. Schmidt . A intrepidez de JK corria célere e irresoluto nos quatro cantos do país, pouco se atentando para o uso da vírgula.  No caso recente, porém, o ator pretendia alcançar o mesmo público, sem se preocupar com sua condição de ilegitimidade e impopularidade. Nada fácil, nesse caso,  construir-se uma frase com uma pontuação correta, pois sua leitura seria sempre de uma gestão antipovo e antinação.


O desastre já estava consumado, por malícia e sensibilidade dos brasileiros, especialmente das redes sociais. Procurou-se outra redação: “Maio/2016 – Maio/2018”, mas a emenda foi pior do que o soneto.  À rejeição, pela história, do esperto mandatário, não cabe qualquer recurso gramatical, como graciosamente se opera na justiça.
Pontuar, com correção, comparando-a a um percurso qualquer, através de um seguimento viário, é obedecermos à sinalização de trânsito.  As palavras, interligadas, funcionam como veículos, tendo de fluírem com segurança, até o ponto final. Estão sujeitas, nesse trajeto, a eventuais paradas, a (,) e mais longas, (;). A vírgula, nesse contexto, não só regula a velocidade, ao exigir necessária pausa, como imprime beleza à escrita e conforto à viagem. Ela serve para separar o aposto, o vocativo ou assessorar o adjunto adverbial.


O mau uso dessa pontuação pode acarretar desastrosos danos à vida das pessoas, trazendo, inclusive, embaraços jurídicos. Destaca-se dentre o grupo de sinais, com poderes para desfazer uma farsa, levando-as a irreparáveis sequelas. Temer, uma dessas vítimas.  Para justificar o erro, não adianta recorrer-se a leis gramaticais mesoclíticas, pois não admite transgressões ao seu emprego, mormente para fins que distorçam sua função. Ciente de sua força, o então governador paraibano Pedro Gondim – conta-nos o amigo Ramalho Leite, de que este se deslocara, certa feita, ao Recife, unicamente para corrigir uma vírgula, numa mensagem natalina, a ser publicada por jornais dessa cidade.
Jornalista
inocnf@gmail.com
 

 


 


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