Inocêncio Nóbrega

Inocêncio Nóbrega

Jornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

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Publicado em 08/01/2019 12h03
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Manchinha

Cinquenta anos se passaram, nesse 13 de dezembro, da edição do AI-5; seriam 50 ou mais velinhas se fosse uma data comemorativa para o bem da humanidade. Cada vela, a representar um patriota sacrificado, após passar por sessões de tortura, praticadas por agentes da repressão da ditadura de 1964, assistidos de perto pelo contratado carrasco francês Assuaresse, ou instruídos pela famigerada Escola das Américas, da CIA. O ato, assinado por Costa e Silva, foi devastador, em nome da doutrina nascente de Segurança Nacional.
Enorme estrutura foi montada, a fim de garantir o sucesso da medida presidencial, a começar pela criação da Operação Bandeirante (Oban), no que foi alcançado mercê da liderança do coronel Brilhante Ustra, o ídolo de Bolsonaro. Exercia o comando do DOI-Codi (1970/74). A ideia estava sendo articulada desde a turbulenta posse de Jango, provocada pelos ministros militares de 1961, só esperando um pretexto para sua decretação. Como tal trivialmente foi usado o discurso do dep. Moreira Alves, na época,  exortando as moças não namorarem os cadetes.


O mínimo sinal de manifestações públicas, as milícias eram acionadas. Adotara-se censura à imprensa, Congresso Nacional fechado, e demais Legislativos podendo sofrer o mesmo destino, habeas-corpus suspenso, Justiça amordaçada. Em 1978 ficou combinado que os exilados retornariam, que o Ato foi uma invenção do prof. Gama e Silva e uma Constituinte aboliria o arbítrio. Na verdade, em 1988 nasce a Constituição Cidadã, que já se mostra cansada, para não dizer violentada. Em mais um oito no final, 2018, nos dá horizonte de que a violência dos tempos atrás estará de volta, embora  com menor virulência. O primeiro sinal foi dado em cima da cadela Manchinha, numa unidade do Carrefour, de Osasco, ocorrida em fins de novembro último. Dias depois, a chacina na Catedral de Campinas.


O aceno de Bolsonaro manifesta o desejo de armar a população; na certa contará com a parceria da Justiça, que hoje olvida seu papel de resistência pelos direitos humanos, no passado. Referido animal, indefeso, abatido com requintes de perversidade, nos traz a certeza de que a gesticulação, por dois dedos de cada mão, quando paciente hospitalar, por uma figura pública, açulara a instintiva mente do algoz.   Semelhantes casos poderão, ainda, ocorrer. Para mim, Manchinha se credencia como mártir, não só da espécie, mas do próprio homem, numa recordação da negra vigência do AI-5. Ustra e esse infeliz senhor, nas circunstâncias das mortes de que são autores, não demorarão subir o pedestal dos heróis, na semântica de novos conceitos sociais. Porém, a liberdade sempre prevalecerá.
Jornalista
inocnf@gmail.com


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