Espaço do Cidadão

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Publicado em 29/12/2012 00h00
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"Eu não tenho mesmo o que fazer"

Enquanto “eu não tiver o que fazer” vou continuar fazendo assim. Quem sabe um dia não seja mais necessário.

Por Paulo Vinícius

Vejam só, minha gente. Como diz meu amigo Jesssier Quirino em um dos seus hilariantes poemas matutos, “nesse mundo tem gente pra tudo e ainda sobra um pra tocar gaita”.


Estava eu, neste começo de noite de sexta-feira entre amigos nas proximidades do meu prédio, na Av Cabo Branco, mais precisamente no Quiosque Caminho de Casa, em frente ao restaurante Sapore D`Itália, quando, mais uma vez, aconteceu. A vaga exclusiva para deficientes físicos foi, diante de nossos olhos, ocupada por um Fiat Fiesta, de cor vinho e dele desceu um casal jovem, aparência de 25 anos, casal bonito, sarado, saudável, em seguida retiraram da mala alguns apetrechos de ginástica, cadeiras de praia, e acompanhados por pequeno grupo de alunos, suponho eu, seguiram em direção à beira mar, para a louvável prática de exercícios físicos.

Muito bem. Diz a famosa citação latina do poeta romano Juvenal, Mens sana in corpore sano ("uma mente sã num corpo são"). Obviamente desconfiei, que de sanidade, a mente desse jovem casal não me pareceu lá muito bem dotada, pelo menos no primeiro momento. E a certeza veio logo depois. Levantei-me discretamente e me dirigi a eles com a educação que mamãe me deu e travamos o seguinte diálogo:


- Boa noite, vocês talvez não tenham visto, mas há uma marca gigante em tinta azul naquela vaga que vocês acabaram de estacionar, avisando que é exclusiva para deficientes.


- Ah a gente viu sim.


-E assim mesmo vocês vão deixar o carro ali?


-É, vamos sim, não tem outro lugar aqui perto pra a gente parar, o que você quer que a gente faça? Que entre com o carro na areia da praia?


-Bem, eu esperava que vocês tivessem consciência mas...


-E você é “guarda”? vai multar a gente?


-Eu não, mas eles vão, porque eu vou fazer questão de chamá-los.


- E você não tem o que fazer não?! pior é você que vai ficar aí bebendo e depois vai sair dirigindo.


E saíram me dando a famosa “rabissaca”. Mal sabia a deseducada senhorita que a minha casa fica a poucos metros do local onde estávamos e, portanto, não preciso de carro para ir do meu prédio até lá e vice versa.


Bem mas, não tendo mesmo eu o que fazer, cuidei de cumprir minha promessa e liguei para a SEMOB, no que fui prontamente e bem atendido pelo Sr. Cristiano o qual prometeu enviar uma viatura até o local. Demorou cerca de 40 minutos, mas chegou. Eram dois distintos agentes na viatura de numero 129 da SEMOB. Ao perceber a aproximação deles fui terminar meu papel de dedo duro e em poucos minutos de conversa, eles me explicaram que pouco poderiam fazer porque embora haja a sinalização horizontal (pintura em azul no chão) a prefeitura ainda não colocou a sinalização vertical (placa com haste na calçada). Por tal razão eles não poderiam autuar os jovens infratores. No máximo poderiam fazer o que eu já tinha feito, isto é, adverti-los e pedir para que eles retirassem o veículo daquela vaga, já que se tratava de vaga exclusiva para deficientes. E só. Confesso que não fiquei muito convencido mas ao menos fiquei parcialmente realizado quando vi o jovem e deseducado casal atendendo os bons conselhos dos agentes e foram estacionar noutro local.


Não sou nem quero ser a palmatória do mundo, nem quero posar de políticamente correto, nem mesmo tenho vocação para membro do Ministério Público e muito menos sofro de síndrome de Joaquim Barbosa. Não sei bem o que me moveu a ter essa atitude. Talvez tenha sido pelo fato de ter uma filha enteada com necessidades especiais, talvez porque tenho amigos queridos que tem problemas de locomoção, mas certamente agi assim por achar que fiz a coisa certa. Outras vezes já tinha feito e deu certo. A pessoa reconheceu e, educadamente, pediu até desculpas e retirou seu veículo para outro local. Portanto, enquanto “eu não tiver o que fazer” vou continuar fazendo assim. Quem sabe um dia não seja mais necessário.   


Resumo da ópera: estamos ainda muito distantes de merecer o título de humanos civilizados. De um lado os cidadãos inconscientes e de outro lado o poder público incompetente e inoperante. Já vai aí meu apelo ao nosso novo e promissor Prefeito. Bote isso pra funcionar, Luciano. O povo quer e você pode.

Fonte: Paulo Vinicius é cantor e compositor

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