Renato Caldas

Renato Caldas

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Publicado em 03/08/2013 12h31
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Desacelerando a vida

Vivemos hoje uma verdadeira aceleração da vida, onde para onde nos viramos, estamos diante de uma correria, que expressa o modus vivendi dos dias de hoje. Não somente os nervos ficam á flor da pele, sob estresse constante, como também nossa alma fica prejudicada e sofre com a agitação ou a pressão “sem piedade” de economizar tempo. Quando tudo precisa se tornar sempre mais rápido, quando precisamos economizar cada minuto possível num processo de trabalho, quando não pode haver nenhuma pausa, quando tudo fica sempre mais veloz, é preciso um contrapeso: a descoberta da lentidão. Podemos redescobrir muita coisa boa por meio da lentidão e da calma.  O que precisamos não é de aceleração, mas de desaceleração.


Se olharmos o trânsito hoje, verificamos uma correria desenfreada, cada um querendo passar à frente do outro, às vezes por questão de segundos, cortando de maneira temerária, avançando sinais de pare, num estresse sem sentido, como se levássemos uma ou duas horas para chegar ao destino. Para que, se a vida é tão rápida e tão efêmera?


Na maior parte do tempo estamos correndo. Mas... para onde? Hoje em dia, não ocorre a muitas pessoas a ideia de simplesmente sentar-se à sombra de uma árvore. Elas preferem correr de si mesmas.


Há pessoas que nunca se acalmam porque, em última análise, têm medo de ficar sem fazer nada de vez em quando. Têm medo de ser confrontadas, no silêncio e na calma com a própria verdade. Assim, também o tempo livre se torna estressante.


Com relação ao tempo, Anderson Cavalcante, no seu livro “O  Que realmente Importa”, comenta que um dos maiores erros que cometemos em  nossas vidas é em relação ao tempo. O tempo do relógio não existe. O tempo é um estado de espírito. É uma questão de percepção.


Basta observar que para quem está feliz o tempo passa rápido demais e para quem está triste ou angustiado o tempo demora a passar. Muitas pessoas tornaram-se escravas de suas atividades. Precisam sempre ter algo para fazer. O pior que lhes pode acontecer é que não tenham nada para fazer, nada para se defender contra a verdade que pode emergir.


Parece que hoje em dia falta paciência para ver algo crescer. É preciso ter sucesso imediatamente, assim como saciar as necessidades. As pessoas já não perdem tempo observando uma flor ou uma árvore crescer. Não levam isso em conta. Então nada prospera, nada se torna duradouro.


As pessoas hoje vivem correndo, participando, portanto, do tempo Kronos , que é o tempo do relógio, dos compromissos, um tempo-coisa com  delimitações.

O tempo Kronos torna os dias repetitivos porque nada cria, torna os dias de espera longos e sem fim. Se Kronos não estivesse em nossos  calcanhares, exigindo pontualidade, cobrando prazos, estabelecendo ritmos, estipulando metas, seríamos  mais humanos e menos máquinas de produção.

Kronos,é portanto o tempo cronológico.O tempo cronológico é ilusório, porquanto criado pelo homem.


Existe um outro tempo que nos pertence denominado Kairós. Kairós é um tempo não-consensual, vivido e oportuno. Esse tempo pertence ao Ser que se encontra na ação, no movimento de passagem, na mudança, no fluxo. Enquanto o tempo Kronos é tempo-coisa, o tempo Kairós é tempo-verbo. É o momento certo para o que há de ser manifestado. É o tempo da história individual, idiossincrática, colorida pela escolha do sujeito.


O tempo do Ser é aproveitado, saboreado, sentido, bem utilizado porque é o momentum que se tem e que se é.
Durante a juventude estamos mais sob o domínio de Kronos, enquanto na meia-idade e na velhice é relevante aceitar Kairós, e reconhecer que ele é o tempo da oportunidade, da reflexão de vermos o que ainda resta ser cumprido.


Para Agostinho, o caminho para a calma consiste em entrar de novo em contato com nossos anseios e transformar nossos vícios novamente em anseios.
No anseio, experimentamos que há, dentro de nós, um cerne  que não é deste mundo, mas algo  que o transpõe. Quando estamos em contato com nossos anseios, podemos, de repente, aceitar nossa vida como ela é e abandonar as ilusões que construímos a respeito da vida e   que nos levaram á insatisfação.

 

Renato Caldas Lins
Professor e Escritor
Lins.rc@hotmail.com
    
    
    
    
   
    
    


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