Des. José Di Lorenzo Serpa

Des. José Di Lorenzo Serpa

> ARTIGO

Publicado em 14/08/2013 10h24
  • Tamanho da letra
  • A-
  • A+

O Surdo-Mudo

  Certo dia caminhava eu pela rua, não digo a passos lentos pois me dirigia com pressa a uma farmácia do outro lado da praça. Assim, ruminando meus pensamentos, juntando as ideias, não divisava aqueles por quem passava.

  Cada passo, um pensamento, cada pensamento uma ideia, e as pessoas por mim passando apressadamente como se vultos fossem. De repente, parei. Não tinha visto ao lado um surdo-mudo, de mãos estendidas, e coloquei no seu prato algum trocado e ele fizera um ar de riso nostálgico.

  Diante de mim mesmo cheguei a me penitenciar pela ofensa de não tê-lo visto. Mas que faria eu diante de Deus? Bem, Deus haveria de entender e perdoar meus atos omissivos resultantes das correrias desta vida. Quantos teria eu ignorado nesta caminhada?

  Se fosse apenas um pedinte,  vá lá. Um surdo ou um mudo, idem, mas as duas coisas, ou seja, um surdo-mudo, consequentemente não ouve nem fala, ficando eu triste a pensar na minha indiferença ao passar pelo pobre homem de mãos estendidas.

  Na verdade, somos eternos surdos-mudos aos sentimentos alheios, talvez pelo nosso egoismo, nossa pressa de chegar na parada mais próxima que ao final não nos leva a lugar algum.

  Acontece que às vezes nos perdemos antes de encontrar a citada parada e esquecemos do próximo, ali em pé ou sentado de mãos estendidas. Claro que não sei o seu nome, pois se trata de um estranho e ainda mais um pedinte nessa caminhada da vida.

  Está ele lá, sem ouvir, sem falar, estando eu cá ouvindo e falando, mas, com certeza, não serei o mesmo ao chegar na farmácia, pois exatamente nela, por ironia, não existe cura para surdo-mudos de nascença. No retorno da farmácia e pelo mesmo caminho, lá estava ele paciente e conformado no mesmo lugar e as pessoas passando, algumas lhe ofertando umas moedas e outras não.

  O que não concordava eu era ver o mundo rodar em torno dessa vil moeda colocada no seu prato, escravizando a tudo e a todos no mundo em que vivemos. Nesta altura, estando eu parado de frente a ele que me olhou diferente, como a dizer: Você de volta? E eu, com meu jeito de ver e sentir, verificava que muitos, talvez a maioria também não o via nem o escutava, até porque de mãos estendidas não falava nem ouvia.

   Des. José Di Lorenzo Serpa
        gdls@tjpb.jus.br
 
 


tags
Nenhum resultado encontrado.

Comentar

Bookmark and Share