Carlos André Cavalcanti

Carlos André Cavalcanti

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Publicado em 27/08/2013 11h28
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Da propriedade privada às famílias-consumo

O avanço do racionalismo marca o Ocidente Cristão desde o século XVIII. Veio no bojo da Ilustração Iluminista com autores clássicos desempenhando o papel central deste movimento crítico, filosófico e cultural. Rousseau, Locke, Voltaire e Montesquieu são os mais famosos. Neles, o debate sobre a propriedade privada passou a ser problematizado. Famosa é a assertiva segundo a qual o  homem que demarcou um pedaço de terra como sua e encontrou outros, tolos o suficiente para acreditarem nisso, criou a propriedade.... Aliás, havia nascido a propriedade e todos os benefícios e males dela advindos.

Mais tarde, Proudhon chegou a considerar que toda propriedade é um roubo. A crítica à propriedade é positiva na medida em que obriga os proprietários daquilo que Marx acertadamente chamou de “meios de produção” a recuarem um pouco na ganância obstinada e patológica que acaba caracterizando grande parte deles e a aprofundarem a responsabilidade social das corporações para a minoria que pensa ter um dever social. É uma crítica construtiva e necessária, esta que em geral se faz à propriedade. Entretanto, a propriedade não nasceu como é hoje: tortuosa e de futuro meio anacrônico em função, inclusive, da impossibilidade ecológica e ambiental de prover as necessidades da humanidade toda nesta lógica de lotear a Terra.

O que nos interessa hoje, entretanto, é enriquecer o debate lembrando que a propriedade privada desprovida de ética que hoje nos intimida, coopta ou amedronta, nasceu com um papel transformador importante. Ela veio romper com a senhoridade medieval ao atribuir a esta uma caráter exploratório desleal. O direito a ter propriedade que está hoje em qualquer pessoa, física ou jurídica, inexistia como universal até o século XVI e foi, aos olhos de hoje, uma conquista diante da sociedade de ordens do medievo. Esta conquista foi ambígua desde o começo, mas foi sendo distorcida mais claramente com o capitalismo financeiro do século XX. Este é o mundo que temos hoje.

Sabe-se hoje claramente que o atual padrão de desenvolvimento, baseado no “marketing” ideológico de um mundo plenamente composto de bilhões de felizes famílias-consumo detentoras, cada uma delas, de uma moradia de cimento concretado, de um ou mais automóveis a combustível mineral, de terminais domésticos de energia elétrica (nuclear, térmica, eólica ou hidroelétrica) e de uma fonte de calor geralmente a gás natural é simplesmente inviável para toda a humanidade. A Terra não é suficiente para prover mais de 7 bilhões de seres humanos com isso. Simples assim! Algum tipo de vida comunitária (socialista?) deverá surgir nos próximos decênios para resolver esta questão e realizar as expectativas cada vez mais claras dos excluídos.

Do contrário, o mundo continuará dividido entre a clausura dos que têm e a expectativa dos que querem ter.... O custo de uma família-consumo é tão alto que necessita de dezenas de famílias-exclusão para mantê-la. A menos que uma extraordinária e ainda não vislumbrada revolução tecnológica se apresente, a humanidade terá de escolher entre uma revolução de tipo comunitário ou a manutenção dos padrões hodiernos de miséria e opressão.

Enquanto atos culturais alienantes e/ou as ações políticas autoritária conseguirem dispersar esta demanda, a interdição a novos modelos perdurará. Isso, porém, não deverá durar para sempre na medida em que o nível de informação crítica dos destituídos ou destituíveis do consumo aumenta....
 


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