“Coisa mais linda”

Quando o Netflix lançou “Coisa Mais Linda”, eu não assisti de cara. Ainda demorei um pouco. O brasileiro tem a péssima mania de assistir primeiro o que não é seu. Até pouco tempo, eu não fugia à essa regra.

Não lembro exatamente quando comecei mas, foi amor à primeira vista. O roteiro é de uma consciência sem igual. Consciência de classe, de raça, de luta. Inclusive, várias são abordadas. Acho que posso dizer que as principais são a do racismo e do feminismo.

Eu devorei a primeira temporada (assim como fiz com a segunda), não tinha como ser diferente. Coisa Mais Linda é necessária! É um afago na alma e voz pra quem enfrenta o que é retratado na série e ainda é calado por uma sociedade que, infelizmente, não mudou tanto assim.

A revolução é feminista. Essa, em específico, liderada por Malu (Maria Casadevall), Adélia (Pathy de Jesus), Thereza (Mel Lisboa), Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Ivone (Larissa Nunes). Ivone, na segunda temporada.

O choque de realidade entre as vidas de Malu e Adélia foi o começo perfeito pra abordagem do que viria. Ambas procuravam por independência num mundo que conseguia ser ainda mais machista do que o que vivemos hoje. Mas o machismo não era tudo. Ser mulher, pobre e preta era muito pior do que ser “só” mulher. Adélia sofreu muito mais.

Foi esse sofrimento, reconhecido por Malu como algo que ela nunca teria dimensão, que deu início a aula de sororidade que se tornou a série. Juntas, elas batalharam pela criação do clube de música e, aos trancos e barrancos, conseguiram erguê-lo.

Personagens: Malu (Maria Casadevall) e Adélia (Pathy de Jesus) / Imagem: vogue.globo.com
Foi estranho pra muita gente, ver uma preta nesse processo. No Brasil de 60, isso era uma afronta. Hoje ainda é. Adélia teve que se posicionar, mais uma vez, com a autoridade de dona que era. Deve ter perdido as contas de quantas vezes a colocaram no posto de empregada do bar, nunca de proprietária.

Aliás, por falar em propriedade, como era surreal, pra dizer o mínimo, o casamento naquela época. Precisar forjar a assinatura do marido pra abrir um negócio deveria ser vergonhoso para a Justiça, não pra quem teve de usar desse artifício pra ter a própria liberdade garantida.

E como elas foram corajosas! Como Malu foi firme, indo contra as ameaças do pai de que fracassaria. Eles, os homens, sempre acham que vamos falhar sem a sua “indispensável” ajuda. Eles não têm noção da força que nós temos.

A necessidade do feminismo se pauta, dentre tantas outras situações, aí. Apesar das inúmeras diferenças entre as personagens, elas não largam as mãos umas das outras. Enfrentam críticas, sabotagens e o machismo de cada dia, juntas. Juntas somos mais fortes. Apoiam o crescimento mútuo e entendem que, à sua maneira, cada uma busca, tão somente, viver.

Personagem: Lígia (Fernanda Vasconcellos)/ Imagem: Copyright Aline Arruda/Netflix
Thereza foi constantemente julgada pelo seu compromisso com o trabalho. Mulheres deveriam ter compromisso apenas com a família, lhe disseram (e nos dizem). Lígia sofreu todo tipo de violência, inclusive física, por querer cantar na noite. Mulheres não podiam sair a noite sem a permissão de seus maridos, pra qualquer coisa que fosse, lhe disseram (e nos dizem). Malu foi abandonada pelo esposo sem qualquer explicação e recomeçou a vida do zero, numa época em que se precisava, judicialmente, de permissão do marido pra exercer qualquer atividade. Adélia, preta, pobre e periférica, o combo do que a sociedade sempre considerou a escória, teve que batalhar três vezes mais do que as amigas brancas pra conseguir qualquer coisa.

Enquanto Malu, da high society paulista, lutava pra trabalhar independentemente, Adélia, carioca do morro, trabalhava por obrigação desde os 9 anos de idade. A luta do feminismo preto começa aí. Trabalhar é direito mas, nem sempre uma conquista. Às vezes, é obrigação e vem de berço.

A luta de cada uma é muito real e retrata o quanto ainda temos pra evoluir enquanto sociedade, visto que décadas se passaram e continuamos lutando, praticamente, pelas mesmas coisas.

Essa é basicamente a primeira temporada. A segunda veio ainda mais forte (eu nem achei que isso era possível). Comecei a assistir o primeiro capítulo a noite, antes de dormir e não dormi. Levantei do sofá às 5h, agradecendo às que vieram antes de mim pela luta e pelo aprendizado. A segunda temporada foi uma aula.

Foram evidenciadas as diferenças gritantes entre os privilégios dos homens em relação às mulheres, o racismo foi escancarado em todas as suas formas, a romantização da violência contra a mulher também foi exposta, o assédio foi abordado, a boemia, a política da falsa “moral e dos bons costumes”, tão vista hoje, também se fez presente nessa segunda temporada.

Como preta, acho que é natural que o racismo tenha me causado uma revolta em especial. Isso porque, não basta ser mulher. A preta sempre sofreu e vai sofrer mais por muito tempo ainda. Doeu em mim os nãos que Ivone levou nas audições musicais, quando Adélia foi discriminada por pegar o elevador principal do prédio em que morava com a filha, quando lhe disseram que a praia tava “popular demais depois que ônibus que vinham das favelas passaram a circular pelas áreas nobres”. Doeu em mim quando Conceição, a sua filha de 6 ou 7 anos, perdeu a vontade de ir pra escola e motivou os pais a saírem do país por causa do preconceito. Desafio qualquer pessoa sensata a assistir essa cena sem chorar. E a escrever sobre ela sem chorar também.

É revoltante ver que as novas gerações seguem passando pelas mesmas coisas. Tive alguns gatilhos. A história de Conceição remete um pouco a minha, enquanto “imigrante” da favela pra área nobre. Teve uma menina que deixou de falar comigo quando eu tinha 10 ou 11 anos, porque eu era preta, num colégio em que, praticamente, só tinha eu e meu primo de preto. Talvez mais uns 2 ou 3.

Dói pensar na possibilidade (real) da minha sobrinha preta passar pela mesma coisa.

Personagem: Adélia/ Imagem: valkirias.com.br
A luta será importante enquanto esse tipo de coisa existir e depois que ele for extinto, pela importância histórica. A luta antirracista é incessante.

Um outro tema muito explorado e que também tomou conta da trama, foi a romantização da violência contra a mulher. Lígia foi morta pelo marido, Augusto (Gustavo Vaz), por puro machismo. O aspirante a político não foi capaz de aceitar que a esposa fizesse o que amava por vocação, cantar.

Augusto foi julgado pela justiça e respondeu em liberdade, uma vez que o crime foi considerado um ato “de amor”. Pela hight society carioca, entretanto, ele continuava sendo considerado um homem exemplar e Lígia, acusada por ele de ter sido uma péssima esposa, de sair pra cantar e ter “ideias libertárias”. Eles não aguentam a nossa liberdade. A ficção nos deu Augusto e a realidade nos deu o goleiro Bruno. A sociedade gosta de assassino de mulher.

Por fim, um tema que me surpreendeu na série foi o amor livre. Malu fica em dúvida sobre o que começou a sentir por dois homens ao mesmo tempo. Não sei se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. A abordagem me pegou de surpresa pela “modernidade” do assunto. Aliás, pelo fato de velarmos “modernidades” que não são tão novas assim. O famoso: “naquela época não existia isso”. Existia sim!

O conservadorismo insiste numa falsa moral arcaica que nos faz questionar a liberdade e o novo. Não caiamos nisso.

Sigamos os exemplos dessas mulheres incríveis que moram, todas, em cada uma de nós. Que saibamos escutar a outra e amenizar a sua dor. A sororidade é uma construção, um aprendizado. Fomos ensinadas a competir entre nós mesmas, não a nos ajudarmos.

Ah, o assassino não aguentou a própria consciência e se jogou do alto do Copacabana Palace. Dizem que a consciência é o mais alto grau de justiça com o qual podemos (ou não) lidar. Acho que é verdade.

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