O Cinema Brasileiro e suas mungangas

Sempre ouvia do meu pai: “cabrita, se você não fizer o que tô mandando, vou tapar seu c… com o osso do pescoço”. Achava que aquela frase fosse de autoria dele, até o dia em que ouvi no filme “O Homem que desafiou o Diabo”.

Apesar de não ser lá tão carinhosa, me levou de volta a infância e fiquei muito emocionada. Onde mais eu escutaria essa referência do meu pai, que não tá mais aqui, se não fosse no cinema brasileiro?

Parecia até que o roteiro era meu. E o que dizer de “O Auto da Compadecida”, “Lisbela e o Prisioneiro” e “Bacurau”, só pra citar alguns? Têm cenas que parecem ter sido gravadas no terreiro da minha casa no sítio ou no pátio da igreja ou até mesmo na Festa do Rosário, de Pombal, com direito a parque de dive tá são e tudo.

E já que tô falando da nordestinidade no cinema brasileiro, o linguajar das personagens é o que mais me fascina. O nordestinês. Em alguns, é mermo que tá vendo eu falando ou poderia ser mainha, meus irmãos, tios, amigos, vizinhos, etc e tal. Um sotaque sem chiar e beeemmm arrastado. Oxe! Coisa mais linda num tem, visse!

Essa paixão começou lá atrás, quando mainha me levou ao cinema pela primeira vez, em Pombal, é óbvio!

O filme era “O Meu Pobre Coração de Luto”, de Teixeirinha. Fiquei tão encantada com tudo aquilo: gente, cadeira, o escuro, som, tela, que nem percebi o motivo de todo mundo tá com lenço enxugando as lágrimas. Só notei que era um fungado da gota!

O filme era triste. Contava a história de Teixeirinha que tinha perdido a mãe aos nove anos. Percebi ali, que, aquele lugar, era um espaço de muitas emoções.

Depois daquele dia, me viciei no cinema de Galdino, famoso por sua lanterna implacável, pra cima e pra baixo, cortando o barato dos frequentadores mais afoitos. Não se podia fazer quase nada, a não ser respirar, chorar e rir, desde que fosse baixo.

Uma vez, fui assistir “Os Trapalhões”. Deu tanta gente, mas, tanta, que o filme teve que ser exibido em quatro sessões. A fila ia de Pombal a Cajazeiras. Eu vi na última sessão, de meia-noite.

Dali pra frente, não parei mais de ver filme. Sem contar que as coisas que acontecem no espaço físico do cinema, não deixam de ser um roteiro pronto, né? Amores que começam ou que se vão e mungangas acontecem o tempo todo. Muitas delas!

Um dia, marquei com minha irmã, Eduarda, pra vê um filme e cheguei atrasada. Entrei na sala, com pipoca na mão e, como tava um escuro de meter o dedo no olho, tropecei no pé de alguém e foi pipoca pra todo lado. Até hoje ela manga de mim. Avi!

Outra vez, fui com o meu irmão, Rômulo Pierre e, novamente, tava atrasada. Eu e ele. Chegamos esbaforidos, em ai de perder a sessão. Como era em 3D, 4 D, sei lá, tinha que pegar os bixiguentos daqueles óculos. Peguei o meu e entrei correndo. Já o meu irmão, não pegou o dele e gritou:

– Não preciso! Sou cego.

E a moça ficou lá estatalada, certamente, pensando:

– O que danado um cego vem fazer no cinema?

Mas, me diga mermo: dá ou não um filme? E, neste caso, brasileiro, que é pra gente comemorar bem muito, pois, em 5 de novembro é Dia do Cinema Brasileiro. Num sabia não? “Cabrita/o, você nem diga isso, porque senão tapo-lhe o c…com o osso do pescoço”. Uia! Haja enredo!

Romye Schneider
São 28 anos de jornalismo (TV, rádio, assessoria) e a vida toda de munganga. Dessa mistura, saem muitas histórias engraçadas sobre o quotidiano, das observações da vida e do que lhe der no quengo e no juízo que ainda lhe resta.

9 COMENTÁRIOS

  1. Kkk kkk Bem cinema brasileiro mesmo. A melhor definição. Fazer cinema no Brasil é mesmo que tapar o cu com o osso de pescoço! Ufaaaa…
    Pelo menos temos um dia para comemorar…
    Kkkk BJ.

  2. Pois que fique bem claro: Eu estou precisando de uma sessão de cinema com você Romye, tipo “O Shaolin do Sertão”… Para rir até doer a barriga.

  3. Pois que fique bem claro: Eu estou precisando de uma sessão de cinema com você Romye, tipo “O Shaolin do Sertão”… Para rir até doer a barriga. 😘

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