De Carol Concê pra Karol Conká

Nunca assisti uma edição do BBB. Acabo sabendo do que acontece através das redes sociais e nunca tinha me aprofundado, até agora.

Primeiro que tem muita gente preta ao mesmo tempo, coisa inédita e isso por si só, já chamou a minha atenção. E segundo que, com toda a violência psicológica que vem acontecendo no programa, essa edição ficou ainda mais em alta.

Quando vi quem seriam os moradores da casa, fiquei feliz. Camila de Lucas, Projota (!), Karol Conká (!!!), Lucas Penteado… Gente que dá a cara à tapa pra defender os nossos. Que massa, pensei. Até que a gente começou a ver comportamentos que não condiziam com a militância que a gente tava acostumado, vindo de gente como Karol Conká.

Pra mim, Karol tem sido uma grande decepção. E me constrange dizer isso porque Karol é mulher, é preta e sempre esteve à frente de movimentos dos quais eu faço parte e defendo (e sempre vou defender) veementemente. Então, foi um baque ver o que ela tá fazendo com Lucas.

Karol usou palavras como “tortura”, “loucura”, e umas outras que nem valem a pena colocar aqui. Se colocou num patamar de superioridade, a ponto de decidir quem poderia olhar pra ela. Quem poderia comer enquanto ela estivesse à mesa e quem merecia ou não a grandiosidade da sua presença.

Nem vou citar a xenofobia por que eu fico muito puta quando alguém fala do Nordeste. E sim, ela poderia ter falado de Juliette em quaisquer outros aspectos que não citassem a origem dela porque caráter não tem nada a ver com naturalidade. Ela, no auge de toda a educação que ela tem batido no peito pra dizer que tem, deveria saber disso.

Pra mim, isso é desumano. Torturar alguém, de qualquer forma, é desumano. E aí começou o movimento de cancelamento de Karol. Coisa da qual eu não sou adepta porque é mais uma maneira de tortura. Não dá pra ser contra a tortura e a favor do cancelamento porque ele acarreta diversas situações negativas que acabam com o psicológico de qualquer pessoa.

No meio desse B.O (rolando enquanto Arthur Lira foi eleito presidente da Câmara, pra terminar de fuder o Brasil), vi um vídeo super sensato de Laís Conti (@djlaisconti) fazendo um paralelo entre Karol e outros participantes que foram tão abusivos quanto ela ou mais e não receberam essa sentença no tribunal da internet.

É certo, visto, provado e comprovado que o ódio à população negra é e ainda vai ser por muito tempo, infelizmente, muito maior. Muito mais concentrado e mais direcionado do que a qualquer outra cor.

Pensando na sensatez de Laís, voltei a refletir sobre tudo isso com um outro olhar e pensei em várias analogias e desdobramentos sobre essa situação de Karol e Lucas.

E só me vem à cabeça a imagem da arena romana. E fico pensando sobre o quanto as ações de Karol legitimam o discurso de um monte de gente racista porque essa galera só quer um pezinho pra destilar racismo publicamente.

Quando um preto ataca o outro, é essa a margem que se abre. Isso vindo de uma pessoa que já circula numa maioria branca, principalmente. O maior privilégio de Karol é justamente esse, estar nesse meio.

Tem dois pretos num ringue televisionado. Uma, claramente dominante. Outro psicologicamente fragilizado e os dois servindo de entretenimento pra uma nação extremamente racista e que faz de tudo pra deslegitimar a luta.

Karol e Lucas são os leões, a internet é a arquibancada e a verdade é que nem um dos dois vai sair ganhando. Por um motivo ou por outro. Lucas tá completamente abalado, visto a condição inclusive do problema de saúde que ele tem, que fica evidenciado pelo cabelo e Karol já perdeu contratos, o respeito e, aparentemente, ainda vai perder muita coisa.

Só consigo pensar que além de toda essa violência que a gente tá testemunhando, as lutas saem fragilizadas. Militar, que na verdade é uma coisa extremamente necessária, principalmente nos dias de hoje, virou uma coisa ainda pior. O que já chamavam de “mimimi”, ficou parecendo ainda mais desnecessário.

Eu jamais defenderia Karol – quero que ela saia do programa porque ela tá prejudicando a saúde mental de todo mundo – mas preciso enfatizar que é bem mais fácil direcionar o ódio a ela do que a outros participantes de outras edições.

O que eu queria que ela e o público entendessem é que essa situação da casa não afeta só eles. É o aval de uma preta pra que outros deslegitimem ainda mais uma luta histórica e tão necessária.

Daí a importância da união do movimento, do acolhimento, da empatia. O povo da gente se uniu pra que hoje a gente seja livre. Família é isso.

O movimento, a família é aquela música de Emicida:
“Tudo, tudo, tudo, tudo
Que nóiz tem é nóiz
Tudo, tudo, tudo
Que nóiz tem é
Tudo, tudo, tudo
Que nóiz tem é nóiz”
(https://www.youtube.com/watch?v=kjggvv0xM8Q)

Família a gente honra, mamacita.
Tortura é coisa que a gente já passou demais.
E que todo castigo seja proporcional e não fuja ao mais importante objetivo: ensinar.
Por falar em ensinar, todo mundo aqui tem muito o que aprender.
Que a gente não esqueça disso.

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