Frente a frente com “ela”

“A única certeza que temos nessa vida é a morte”. Quantas vezes a gente já ouviu isso? Agora, me diga! Quantas vezes saber disso diminuiu o nosso medo de morrer? Nunca. E quando “ela” fica frente a frente com você?

– Deurmedefenda de uma hora dessa. Eu saio correndo. Deixe de brincar com isso. – Era o que eu sempre dizia quando o assunto era “ela”, a morte. Até que vi a minha tia, de 78 anos, tendo um AVC, bem na minha frente.

“Por sorte” (?), segundo os médicos, foi o AVC I de Isquêmico e não o AVC H de Hemorrágico. E, antes que você fique aflita/o, informo que ela tá bem. Mas, confesso que aquela não foi a cena mais interessante que já vi nessa vida. Talvez, a mais impactante e real que não quero ver de novo, de jeito nenhum.

Era uma quarta-feira, por volta das 3h30 da tarde! Eu e mainha tínhamos acabado de chegar da delegacia (?). Fomos tirar a segunda via da identidade dela. E aqui abro um parênteses pra falar de vida. Aos 75 anos, mainha ficou numa felicidade tão grande por tá tirando aquele documento, que me remeteu ao passado, quando eu tinha 17 anos e tirei a minha identidade. “Agora, sou gente grande” – pensei. Sei! Já mainha, deve ter pensando: “Eba! Agora, vou voltar a resolver minhas coisas que tavam paradas desde o dia em que perdi a outra identidade”.

Esta é a minha mãe, Clizete. A praticidade em pessoa. E, voltando a cena da convulsão de tia, apesar de mainha ter ficado bem assustada, insegura e impotente, ainda assim, continuou sendo prática. Já eu…

Assim que chegamos da rua, fui fazer tapioca. Mal deu tempo de botar o primeiro pedaço na boca e tia Gipce (fique à vontade pra ter alguma reação ao ler este nome. Todos têm.), começou a ter o AVC, que a gente só veio saber do que se tratava no hospital, é claro.

Ela tava sentada e mainha segurando um braço e ficou me chamando pra segurar o outro. Fiquei tão desorientada que nem fazia o que ela pedia, nem comia, mas, também não soltava a tapioca. Enquanto isso, o meu caçula, Ian, 19, com muito mais atitude que eu, ligou pro Samu.

Confesso que, por um momento, diante da cena a frente dos meus olhos, achei que a vinda do Samu talvez fosse desnecessária. Mas, a minha tia é uma fênix. Quando a gente já tava quase perdendo as forças e a esperança, ela, ressurgiu. Desorientada, é certo, mas, continuava ali, com a gente. Foi pro hospital onde ficou apenas um dia e já está bem, em casa.

Que experiência foi aquela, senhor! A cena não sai da minha cabeça e, junto com ela, a convicção de que não tenho certeza de absolutamente nada; do quanto somos frágeis e fortes, ao mesmo tempo e, principalmente, a reafirmação da única certeza que temos na vida: a morte.

Romye Schneider
São 28 anos de jornalismo (TV, rádio, assessoria) e a vida toda de munganga. Dessa mistura, saem muitas histórias engraçadas sobre o quotidiano, das observações da vida e do que lhe der no quengo e no juízo que ainda lhe resta.

8 COMENTÁRIOS

  1. Um momento assustador! O medo que tenho nem é sobre o ‘quando’, mas o ‘como’. Ela está por perto, levando amigos e familiares. Vamos vivendo!!

  2. Bom dia !
    Esse assunto é muito sério mesmo. Ficamos vivendo como se “ela” não existisse. Enquanto isso, todos, queiramos ou não, estamos seguindo nessa direção a passar, para os que créem ou não, por essa transformação de entrar no mundo espiritual. O problema é que o mundo.material, muitas vezes, não prepara para essa realidade que tem muitos caminhos com muitos destinos, mas somente ELE pode nos levar a para o destino prometido.

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