As *visage da pandemia

Já faz tanto tempo que tamo nesse novo normal, misturado com o velho normal, que tô vendo coisa.

Num sábado ensolarado, aproveitei pra arrumar a casa. Sim, porque póbi adora sol pra fazer faxina e botar roupa no varal. Me empolguei tanto que organizei até o quarto do meu filho. Tenho a impressão que ali tem uma mistura de desastres naturais, como terremoto, tsunami…

Deixei a casa brilhando mais que catarro em parede. Depois, fiz uma faxina na minha pessoa, tranquei as portas, arrolhei o portão e fui pra casa de mainha. Vi um pouco de tv e voltei pra casa, onde as visage me esperavam.

Quando abri o portão, dei de cara com aquele pantim, aquela visage: um par de luvas pretas com um copo de requeijão, ainda com um restinho do produto, no terraço, ao lado do carro.

Vou ser sincera. Só não “obrei” porque não tinha me*da pronta. De 1 a 10, na escala do medo, o meu foi a 20 e os pensamentos não ajudavam muito.

– Será que tem ladrão dentro de casa? Será coisa do capiroto? Será um aviso de que vai acontecer uma coisa ruim?

Independente do que fosse, precisava de alguém pra entrar em casa comigo e vê se tinha alguma coisa fora do lugar, além do meu juízo. Depois daquilo, ia passar um bom tempo pra voltar ao habitat natural, o meu cabeção.
Chamei uma vizinha, que conversava na frente de casa, e, já confesso, que não foi a melhor das ideias. Imagine a cena: eu com uma barra de ferro na mão e ela com mais medo do que eu. Olhamos debaixo de cama, dentro de guarda-roupa, geladeira, fogão…só escapou o tapete porque aqui em casa não tem.

Como tava tudo em ordem, fui me acalmando. Até que ela não se contentou e agitou as parada:

– Mulher, tô toda arrepiada, da cabeça aos pés. Essa sua casa tá carregada, viu!

Depois dessa, imagina como ficou o meu medo. Lá fui eu fechar tudo de novo e saí correndo pra casa de mainha. Nem esse vento miserávi, que tá fazendo em João Pessoa, me pegava. Fui dormir lá. Afinal, mãe protege É?

Só sei que, quando contei a ela da vizinha, a reação foi bem no estilo de mainha:

– Só pode ela dizer que tava toda arrepiada. Um frio da peste desse!

E a noite continuou nessa pisada:
– Oh mãe! Vamo comigo na cozinha pra eu tomar água. Fico vendo aquelas luvas em todo canto.
– Deixe de ser cavilosa, mulher! E, por falar nelas, você viu se presta pra lavar a louça?
Melhor dormir, né. Quer dizer, só mainha porque eu, não preguei o olho. Aproveitei que tava acordada sozinha pra fazer uma prece:
– Deus, por favor, já que tamo só eu e o senhor aqui, me revele: o que vai acontecer de ruim? Pode dizer. Eu sou forte e aguento.
Até que…mal terminei de bater um papo com Deus, e comecei a ouvir uma zoada que vinha de vários lugares da casa.
– Mãe! Mãe!
– O que é?
– Mulher, que zoada é essa?
– Os ratos.
Mal respondeu e já voltou a roncar. Mais tarde, tome mais zoada. Só que, dessa vez, bem mais forte.
– Mããããeeeeee!
– Minhanossa, você não vai me deixar dormir não? O que foi, dessa vez, pelascaridade?
– Mulher, escuta! É zoada com força e é lá na cozinha. Parece até que tão quebrando os pratos.
– É não, minha filha! Deve ser os rato lavando a louça!
Foi quando a ficha caiu e eu comecei a ligar os pontos! Rato é animal, Joaquim, o meu cachorro, também…Dei um grito que devo ter acordado a metade dos vizinhos:
– Já seeiii! Quem trouxe as luvas Foi Joaquim.
Mainha deu um pinote da cama, já dando pitaco:
– Pia mermo a visage! Da próxima vez, pede pra ele trazer uma coisinha mais nova que dê pra gente aproveitar, viu!

*visage – assombração, malassombro

Romye Schneider
São 28 anos de jornalismo (TV, rádio, assessoria) e a vida toda de munganga. Dessa mistura, saem muitas histórias engraçadas sobre o quotidiano, das observações da vida e do que lhe der no quengo e no juízo que ainda lhe resta.

13 COMENTÁRIOS

    • Vala. kkkkkk só que pra mim o senhor é pura inspiração. Inclusive, na ideia de fazer esse texto contando as minhas visage. Muito obg.

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk….. só não me diz que isso foi numa sexta-feira 13. kkkkkkkkkk essas visage é de deixar qualquer pessoa de juizo no lugar fora dele. kkkk muito bom!

    • kkkkkkk Joaquim me salva, embora me faça muita raiva, em alguns momentos. kkkkk Quanto a mainha, tranquilidade n é bem o que a define….kkkkkkk

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