“Sou do Nordeste e não nego meu naturá”

“Seu dotô me dê licença pra minha história contar…”
– Pode se aprochegar, Patativa do Assaré! Afinal, o Dia do Nordestino (08 de outubro), existe em sua homenagem, a quem somos gratos por ter nos deixado tantas obras. Entre elas, esse lindo e significativo cordel (Vaca Estrela e Boi Fubá), cantado por Luiz Gonzaga e Fagner.
“Eu sou filho do Nordeste, não nego meu naturá
Mas uma seca medonha me tangeu de lá pra cá
Lá eu tinha o meu gadinho, num é bom nem imaginar,
Minha linda Vaca Estrela e o meu belo Boi Fubá
Quando era de tardezinha eu começava a aboiar
Ê ê ê ê la a a a a ê ê ê ê Vaca Estrela,
ô ô ô ô Boi Fubá.”

Quem é nordestino e nunca teve que sair de sua terra em busca de “vida melhor”? E tem melhor do que o nosso canto? Nunca entendi direito isso e acho que Patativa também não. Pia mermo:
“Hoje eu tô na terra estranha, é bem triste o meu penar
Mas já fui muito feliz vivendo no meu lugar”.

Não tem como não ser. É como se o calor de rachar o quengo do sertão – no meu caso, Pombal e no de Patativa, Assaré, no cariri do Ceará – também aquecesse o coração, protegendo contra as maldades e valorizando as bondades.
Pelo menos, era assim quando eu morava no sítio Caiçara de Baixo, com mainha, painho e uma rede pra “brincar de cair”. Rede de pano, porque lá o único meio de comunicação que existia era um rádio ABC.

Parece que tô vendo, ele atrepado, numa prateleira na sala, lá em cima, bem longe do meu alcance. Até hoje, não entendo porque faziam aquilo, eu era tão “quietinha”.
O que sei mermo é que foi no sítio, onde comecei a me “alfabetizar” nas mungangas, outra coisa que o nordestino preza demais. Meus pais eram os melhores “professores”.
“Hoje nas terra do sul, longe do torrão natá
Quando eu vejo em minha frente uma boiada passar,
As água corre dos olho, começo logo a chorá…”

Perdão por me intrometer nos versos de Patativa do Assaré, mas, é que são a cara do meu pensar sobre o Nordeste e de muita gente.
Patativa do Assaré, o “poeta da roça”, ganhou em homenagem ao seu centenário, o Dia do Nordestino, em 2009, pra celebrar as raízes e as tradições culturais dos nordestinos, além de relembrar a vida e obra do autor cearense.
Ele teve reconhecimento nacional, ganhou prêmios e foi cinco vezes Doutor Honoris Causa. Mesmo famoso, nunca deixou sua terra, no interior cearense.
Viva a força do Nordestino e obrigada a Patativa, Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga e tantos outros que lutaram e lutam pelo nosso jeito de viver; de conviver; de fazer de tudo pra ser somente feliz, mesmo sabendo que tem tristeza e maldade; da nossa cultura e de tudo que defende o povo nordestino.

Viva o Dia do Nordestino!

Romye Schneider
São 28 anos de jornalismo (TV, rádio, assessoria) e a vida toda de munganga. Dessa mistura, saem muitas histórias engraçadas sobre o quotidiano, das observações da vida e do que lhe der no quengo e no juízo que ainda lhe resta.

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