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Crônica

Carta de Despedida

Sobre o suicídio

J.G Fernandes

J.G FernandesJosé Geraldo Fernandes Neto é natural de Pilões, localizado a 117 quilômetros de João Pessoa/PB. Escreve desde 2013 textos que variam entre críticas sociais, poesias, motivação, política, entre outros. Formado no Curso de Letras da UEPB, escreveu o o prefácio do livro de crônicas Relicário, da autora Aninha Ferreira. Também escreve textos por encomenda para prefácios de dissertações e outros trabalhos acadêmicos. “Escrever é a arte que mais me satisfaz“

23/04/2019 22h34
Por: da Redação

Nós nem queríamos mudar o mundo; desejávamos apenas nos adaptar a ele ou, talvez, sermos aceitos da única forma que sabíamos. 

Apesar de padecermos no mesmo vazio, cada um de nós vive perdido em um buraco negro diferente, por isso muita gente acha que somos todos iguais. Não é porque queremos chamar atenção. Ainda pensamos em fazer protestos, mas ninguém nos escutaria, afinal, quase sempre dizem que é ‘frescura’ nossa.

Por estas e muitas outras coisas a gente acaba por evitar o mundo, porque hoje nos julgam por muita coisa, mas ninguém sabe o que aconteceu no nosso passado. 

Não foi assim, do nada, que as coisas ficaram tão frias. Sempre existe alguém que aparece sorrateiramente e descolore a nossa vida. São muitas as causas: uma ameaça, um abuso, muitas mentiras, acusações indevidas, coações, gozações. Tudo para nos fazerem menores do que realmente somos.

Começou quando me senti sem rumo e pus o fone no ouvido para curtir a minha ‘bad’ com músicas extremamente tristes, mas que passaram a ser uma das poucas coisas que faziam sentido.

As vezes fingíamos estar tudo bem, somente para ninguém chegar muito perto e ver nossa confusão, pois, na maioria das vezes, ninguém queria ouvir realmente; desejavam apenas dizer suas próprias verdades sem compreender nossos motivos.

Por favor, não obedeçam mais quando algum de nós pedir para ficar num canto quieto, pois solidão é a última coisa que nós precisamos. Faltou alguém para nos abraçar e mostrar que tínhamos valor. Não entendo porque não nos disseram antes que havia outras possibilidades de viver. E nós, em vez de sermos nós mesmos, procuramos nos adaptar a tantos padrões nesse mundo e nos perdemos querendo agradar a todos.

Cansamo-nos de viver em um mundo que inventa tanta coisa séria e esquece-se do que é essencial. Ficou insuportável acordar todos os dias decepcionado. Abrir o olho no dia seguinte passou a ser a coisa mais frustrante, descer da cama e pôr o pé no chão nos era semelhante a voltamos para uma prisão.

Assim como todo mundo, eu precisava ser ‘nós’ para ser feliz. Precisava ser cor na aquarela da sociedade, mas meu tom quase transparente nunca pareceu fazer diferença na vida de ninguém.

Alguns ameaçaram partir. Eu estou partindo sem avisar, pois talvez ninguém nem me procure, mas, se ainda der tempo, por favor, me amem. Digam-me que ainda sou capaz de ser alguém. Mandem uma mensagem pelo whatsszap, me façam entender que não sou louco, que cada um tem suas indecisões e que isso é normal.

Não peço que compartilhem da minha insanidade, mas que não desistam de mim em nenhum momento, pois, se estou partindo, é porque ainda não me achei no coração de ninguém, e aqueles que disseram me amar não conseguiram me convencer disso.

 

José Geraldo Fernandes Neto

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