Artigo

Perdão do Papa

Luzia Pinta foi acusada pelo exercício de bruxaria foi denunciada à Corte da Santa Inquisição

Inocêncio Nóbrega

Inocêncio NóbregaJornalista e economista, começou aos 18 anos como revisor de "A União" e depois assumiu a coluna "A União há 50 Anos". Escreveu artigos, colunas e reportagens em "O Norte" e "Correio da Paraíba". Trabalhou na Assembleia Legislativa da Paraíba como taquígrafo e Redator de Debates. Tolhido pela ordem política da época, foi duplamente anistiado, político e da API. Escreveu dois livros: "Malhada das Areias Brancas" (1975) e "Independência! No Grito e na Raça" (2009).

17/06/2019 13h21Atualizado há 4 semanas
Por: da Redação
Crédito da foto: Internet
Crédito da foto: Internet

Luzia da Soledade, mais tarde conhecida por Luzia Pinta, angolana de doze anos, trabalhava como escrava na residência de um tal Manoel Lopes de Barros.  Pela manhã de um certo dia saiu ao quintal da casa, de repente ficou paralisada, sem sentidos, levada, sem saber, ao encontro de uma velha, à margem de um grande rio. A idosa lhe recomendou que logo fosse embora, pois haveria de voltar, brevemente. A menina continuou seu caminho.

            Pelo menos em 1739, ainda solteira, fixara morada próxima à Capela da Vila Real de Nª Srª do Sabará, onde, no correr do tempo, é tida como feiticeira, pela prática de adivinhações e poder de curar as pessoas, angariando simpatias da população. Acusada pelo exercício de bruxaria e superstições diabólicas, imaginou o clero local denunciá-la à Corte da Santa Inquisição.

            Depois de passar pelo Rio de Janeiro, em cuja cidade foi redigido o libelo, teatralmente ampliado, em 1743, se achava em Lisboa, sendo pronunciada, também, pelo uso de trajes exóticos, incompatíveis com os costumes do lugar. Lá, é submetida à rigorosidade dos inquisidores, constantemente arguida, num vai e vem à cela. Confessa que era, filha de Manoel da Graça e Maria da Conceição, ele de Angola, ela do Congo, negava as imputações contra si.  Forçada, segue ao tormento do potro. Acaso resistisse às torturas, ao algoz é autorizado quebrar algum membro da ré.

            Enfim, a sentença a obriga ouvi-la em Auto de Fé, perante autoridades, num espetáculo degradante.  Remetida ao degredo, por quatro anos, em Castro Morim, é proibida de retornar à Sabará - MG, cuja memória ainda hoje cultivada.

            O jornalista Hipólito José da Costa, fundador do primeiro jornal brasileiro, “Correio Braziliense”, por outra razão é alcançado do Tribunal de Inquisição, pelo fato de aderir à maçonaria. Em Portugal é preso e torturado, por três meses, conseguindo fugir da masmorra e de novas atrocidades.

São lamentáveis acontecimentos da história, em meio a milhares de outros, contemporâneos ou não, que aqui retomo num instante em que Sua Santidade, o Papa Francisco, em pronunciamento recente, pede perdão pelos castigos infligidos pela Igreja aos indígenas do México. Uma atitude de hombridade que resgata as palavras de Cristo, dignas de serem imitadas pelos governos títeres.

Luzia da Soledade e Hipólito, junto aos demais que sofreram “santas penalidades”, esperam a mesma reparação papal. Contudo, nem sempre foi essa a política do Vaticano, em relação aos nativos das Américas.  No Brasil, os jesuítas operavam em favor dos indefesos aborígenes, vítimas de extermínio pelos bandeirantes, razão pela qual foram expulsos, por mercê do superministro Marquês de Pombal, exemplar bastante copiado contra o povo.

 

         Jornalista

         inocnf@gmail.com

 

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